Médicos dentistas

Opinião: Tanta coisa

Médico dentista, OMD 633

Neste outono que será do nosso descontentamento, tal como o inverno o foi para Steinbeck no seu famoso romance, nada de melhor será de esperar quando comparado com o que tem acontecido nos últimos tempos à medicina dentária em Portugal. Confesso que bem gostaria de suspender estes artigos de opinião em que dificilmente me consigo manter afastado de abordar temas socioprofissionais, tal é a “comichão” que me causam múltiplos e recorrentes atropelos à ética profissional, à decência, ao bom senso e ao bom gosto, à inteligência e à retidão de carácter.

Continuamos, infelizmente, a assistir com um profundo sentimento de impotência à paulatina degradação de várias vertentes que condicionam a nossa prática como médicos dentistas. Tudo começa pela ausência de divulgação de informação, verdadeira e direta, prestada a montante da entrada nas faculdades de Medicina Dentária. É fundamental disponibilizar informação realista acerca das necessidades do País no que respeita ao número de médicos dentistas necessários nas próximas décadas, e acerca das suas atuais e futuras saídas profissionais. Os jovens colegas recém-licenciados que nesta altura iniciam a mais árdua – e quiçá penosa – batalha das suas vidas ao procurar um digno meio de subsistência exercendo a profissão de médico dentista têm todo o direito à revolta e indignação por constatarem que o País lhes falhou nas expectativas criadas.

Falhou o País que não gere as suas necessidades em recursos humanos, falharam as faculdades que os acolheram de braços abertos, mas não conseguiram dar-lhes a melhor formação possível, não os preparando devidamente para ingressarem num mercado de trabalho exigente; exigente porque a profissão por eles eleita não é fácil de exercer sem uma preparação prática e teórica intensa e intensiva. Falhou a nossa Ordem dos Médicos Dentistas que, como grande instituição agregadora dos médicos dentistas e sua representante e defensora, pouco fez para impedir este estado das coisas a que chegámos; e se alguma coisa fez, nenhum resultado prático obteve. Falhou obviamente o nosso bastonário, que teimosamente ocupa o cargo há 19 longos anos, perpetuando-se no cargo que todos sabemos ser representativo, mas ao qual poderia – e deveria – ter sido impressa uma dinâmica e uns objetivos completamente diferentes.

Falhou o Conselho Diretivo da Ordem, e demais órgãos sociais, ao não serem capazes de alterar o rumo traçado nas suas prioridades; tanto poderia ter sido já feito ou tentado – bem o tenho sugerido nestes artigos de opinião – como, por exemplo, campanhas de informação junto do grande público, contratação de assessorias com escritórios de juristas, coerência nas negociações com o Ministério da Saúde, insistência na persecução da obtenção de uma carreira de médico dentista no SNS, aproveitamento da rede de clínicas privadas na prestação de serviços públicos de medicina dentária, regulação da publicidade fazendo cumprir o Código da Publicidade em saúde; punição, e divulgação das punições, de infratores do Código Deontológico; renegociação ou revogação do acordo do vergonhoso e explorador “cheque dentista”, fomentação da regulação do numerus clausus, e ainda, talvez o mais importante tendo em consideração o recorrente argumento dos nossos dirigentes de que “estes assuntos não cabem na órbita legal de atuação da OMD”, a fomentação por todos os meios possíveis e imaginários do surgimento e bom funcionamento de um sindicato, ou associação socioprofissional, de médicos dentistas.

Infelizmente, o senhor nosso bastonário, ex-presidente da Federação Dentária Internacional (FDI), atual presidente da Confederação Nacional das Ordens Profissionais (CNOP) e da Federação Europeia dos Reguladores da Medicina Dentária (FEDCAR), não tem conseguido entender o interesse de todas estas ideias, preferindo antes canalizar as suas energias para cargos, atuações e eventos que, em pouco ou nada, contribuem para a melhoria das condições de exercício da medicina dentária em Portugal.

*Artigo de opinião publicado na revista SAÚDE ORAL n.º 128, de setembro-outubro.