Clínicas dentárias

Opinião: Gerações X, Y, Z e… Alpha – um desafio imperdível!

Millennials ou Millenniums (Geração Y), nascidos na década de 1980 e até meados da década de 1990, e um tema amplamente debatido nos anos mais recentes, nos mais variados fóruns empresariais. Claramente um motivo de preocupação para os diretores clínicos e gestores de clínicas médico-dentárias (CMD), mas que fazem parte da geração anterior (a X), nascida nas décadas de 1960-70. Mas haverá mesmo motivo para tanta preocupação? Fará sentido haver tantos debates sobre a forma de ser e estar dos nativos desta geração? A visão que esta geração tem do mundo, da vida e do trabalho, é claramente distinta da anterior. A forma de consumir também é outro fator que diferencia ambas gerações e isso tem revolucionado o modo de atuação das empresas para atrair os consumidores e potenciar a credibilidade e notoriedade dos seus produtos e serviços no mercado. Só estas diferenças, por si só, já justificam um debate ou uma discussão de ideias. Além disso, também afetam as relações de trabalho. Hoje, a Geração Z, os Millennials e ainda a Geração X trabalham juntas, o que traz um enorme desafio para as empresas: como abranger perspetivas profissionais tão diferentes e sobreviver a este “cocktail de gerações”?

Os Millennials têm um comportamento peculiar na sociedade, pois têm maior propensão a voltar para casa dos pais, mas mantendo a independência, de adiarem o início de uma carreira e o casamento. Há quem os chame de Peter Pan ou Boomerang Generation. Ainda estou para perceber porquê. Mas desengane-se quem acha que os Millennials são pouco trabalhadores, pouco dedicados ou pouco empenhados. Ao contrário da geração anterior, são bastante otimistas, ambiciosos, com a capacidade de pensar “fora da caixa” e gostam de ser e sentir-se produtivos (ainda que muitos não o sejam, claro está). Estão sempre à procura de novas soluções e oportunidades na sua vida profissional. Mas também têm propensão a ser mais narcisistas ou a gastar mais do que poupar. Ora, este novo mindset causa constrangimentos a qualquer empresa, e é algo que se observa muito no seio das CMD: profissionais que não estão dispostos a trabalhar fora do horário, fazer turnos, fazer fins de semana ou então abdicar das férias que estão marcadas em prol da equipa ou da organização. Este novo comportamento leva a que haja uma maior rotação de pessoal, pois um “emprego para a vida” não é algo que faça parte das preces ou cogitações de um Millennial. Com eles não há “juras de amor” ou lealdade para com a empresa. O que faz muita confusão a um elemento da Geração X, naturalmente. Eu pertenço à Geração X, nasci nos 1970 (ainda que próximo dos 1980) e tenho hoje na equipa vários Millennials. Confesso que há uns anos estranhei muito o seu comportamento, para mim era tudo muito novo e não sabia muito bem como lidar com isso. Hoje, já passei essa fase. Estranhei, mas depois entranhei. E hoje sinto que eles me compreendem e que sentem que os compreendo. E as coisas funcionam de forma fluida, mas só porque há cedências (naturais) de parte a parte.

Mas chega de falar dos Millennials. Já ouviu falar da Geração Z? Também conhecidos por Digital Natives, Gen Z, Plurais, iGeneration, Gen 2020, Centennials ou Pós-Millennials. As pessoas desta geração nasceram entre os meados e finais da década de 1990. As pessoas desta geração são nativas digitais e estão sempre conectadas e acedem a múltiplas plataformas de informação, com particular destaque para as redes sociais. Através destes meios, os Digital Natives têm acesso a rankings, avaliações e feedbacks sobre produtos e serviços. Este comportamento transforma a relação com as empresas, pois confiam muito mais nas avaliações online de amigos, conhecidos ou influenciadores das redes sociais, do que na dos vendedores de lojas físicas. Estima-se que, até 2021, os Digital Natives representem 40% do consumo no EUA, Europa e BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Impressionante. Mas, a verdade é que hoje em dia esta geração já tem um contributo fundamental na economia mundial, pois são eles que influenciam 93% das compras domésticas relacionadas com viagens, alimentos ou acessórios para casa, tais como eletrodomésticos, mobília e equipamentos eletrónicos.

Mas, então, quais são as principais diferenças entre os Millennials e os Digital Natives? Se os elementos da Geração Z são os nativos digitais, os Millennials (Geração Y) são pioneiros digitais. A relação entre estas duas gerações com o acesso à tecnologia, à Internet e às redes sociais é muito forte. Contudo, a forma como as utilizam é um fator diferenciador entre elas. Os Millennials são conhecidos por estarem 24 horas online, conseguem aprender rapidamente sobre como utilizar as novas ferramentas tecnológicas e procuram soluções digitais para os problemas do dia a dia no trabalho. Os Digital Natives, por sua vez, apesar de também estarem sempre conectados com o mundo digital, utilizam mais e lidam de forma mais tranquila com a comunicação entre os dispositivos tecnológicos, que acontece por meio da Internet das Coisas (IoT[1]).

Em relação ao trabalho, enquanto os Millennials são motivados pela oportunidade de crescimento na carreira, defendendo o equilíbrio da vida profissional com a vida pessoal, enquanto os Digital Natives preferem estabilidade, aumento de salário e defendem a promoção da igualdade e diversidade no ambiente empresarial. Pessoalmente, diria que são um misto entre as gerações X e Y, mas também têm uma identidade muito bem vincada. Ao contrário dos Millennials (gostam de trabalho em equipa, horários flexíveis e trabalhar remotamente), gostam de trabalhar de forma independente, preferindo ter um espaço de trabalho exclusivo. São extremamente competitivos no mundo empresarial.

E agora, como se chama a esta nova geração, que nasceu após o ano de 2010? Ainda são crianças, mas a sua geração já tem nome: Geração Alpha. Os nativos desta geração, e perdoem-me a expressão, já falavam ao telemóvel quando estavam na barriga da mãe. Esta geração está a revolucionar a forma como se relacionam com os pais e coloca em dúvida todos os modelos de educação que existiram até hoje. O diálogo em contraponto com a estrutura hierárquica já é o principal diferencial para esses indivíduos na relação dentro de casa e nas escolas. A Geração Alpha tem tudo para ser mais independente e mais hábil para resolver problemas. Os elementos desta geração serão potencialmente multifacetados, podendo assumir múltiplas identidades profissionais com mais facilidade.

Entender estas gerações, as suas necessidades e expectativas, tem sido o alvo de disciplinas da gestão como os recursos humanos ou o marketing, pois é fulcral compreender que existem diferenças fundamentais de comportamento e pensamento de uma geração para outra.

As CMD, à semelhança de outras organizações do mercado de trabalho, têm sentido estes conflitos geracionais nos anos mais recentes e nem sempre têm tido a capacidade de geri-los da melhor forma. Se hoje em dia já é difícil gerir recursos humanos, com o tal “cocktail de gerações”, de que forma um elemento da Geração X gerirá uma organização que terá tendencial e proporcionalmente mais Millennials e Digital Natives nos seus quadros? Eis um excelente desafio e exercício de reflexão e introspeção para os próximos tempos…

[1] A Internet das Coisas, também conhecida pelo acrónimo IoT, compreende todos os aparelhos e objetos que se encontram habilitados a estarem permanentemente ligados à Internet, sendo capazes de se identificar na rede e de comunicar entre si.

*Artigo de opinião publicado na revista SAÚDE ORAL n.º 128, de setembro-outubro.