Entrevista

Leonor Sousa, vencedora do Prémio Carreira nos Prémios Saúde Oral 2018: “Não foi amor à primeira vista”

Leonor Sousa, vencedora do Prémio Carreira nos Prémios Saúde Oral 2018: “Não foi amor à primeira vista”

Foi com estupefação que recebeu o telefonema a informar que era a vencedora do Prémio Carreira na edição deste ano dos Prémios Saúde Oral. Não estava à espera, acabou por confessar. Entregue o prémio e recomposta da surpresa, estivemos à conversa com a primeira mulher a conquistar o Prémio Carreira nos Prémios organizados pela Saúde Oral.

Quando recebeu o telefonema a informar que tinha conquistado o Prémio Carreira nos Prémios Saúde Oral recorda-se qual foi a sua reação?

Fiquei muito estupefacta. Pensei que iam pedir-me para avaliar algum currículo ou para ser júri de um exame, mas nunca para um prémio. Apesar de reformada, ainda me dou com muitas pessoas do meio e foi um segredo muito bem guardado. Nunca pensei receber um prémio destes. Estamos habituados a ver um Prémio Carreira nos Óscares (risos) para pessoas que tiveram trajetos de vida muito importantes. Não me sinto assim. Tinha 19 anos quando iniciei a prática de estomatologia, na altura por convite do Prof. Dr. Humberto Ferreira da Costa.

Na altura porque escolheu essa área?

Não escolhi! Estava a tirar o curso de Medicina e um dia entrei no consultório dele como doente, num estado lastimoso e com um medo terrível. A medicina dentária sempre apavorou as pessoas pela dor que provocava e pela maneira como era praticada. Nessa altura já me faltavam vários dentes porque nunca foram trataram e sempre foram retirados.

E foram as más experiências que originaram esse medo?

Quando entrei no consultório não conseguia sequer falar porque o ar que entrava provocava-me dor nos dentes da frente. Entrei como doente. Depois, por empatia e porque achou graça ao facto de ser muito nova, um dia disse-me: ‘olha Leonorzinha (ele sempre me tratou assim) porque não vens trabalhar comigo’? Respondi que estava a fazer o curso de Medicina e não podia. Era uma área que provocava dor e não queria nem pensar nisso. Ao que ele respondeu: ‘vens só ver-me trabalhar’. Foi assim que comecei a ser sua ajudante. O Dr. Humberto sempre foi uma pessoa muito ligada às faculdades americanas, ia muito a Boston, sempre foi muito avançado para o nosso meio em termos técnicos.

Porque escolheu o curso de Medicina, por tradição na família?

Não, foi mesmo por apetência pessoal. Gostava muito de ter feito pneumologia, onde ainda trabalhei alguns anos, ou dermatologia por ser uma especialidade complicada. Nem sempre temos os resultados que esperamos, mas quando não se pode curar dá-se alívio ao paciente.

Nessa altura não era muito normal as mulheres entrarem nas faculdades.

Pois não, até se dizia que todas as médicas tinham de ser feias e malvestidas (risos). As mulheres mais bonitas iam para Letras. Mas foi mesmo por gosto. Tínhamos um grupo muito unido, tanto na parte masculina, como feminina e ainda conservo amizades desses tempos. Durante o curso nunca senti nenhum sectarismo em relação a ser mulher. Senti mais na profissão do que no curso, especialmente depois da licenciatura e na escolha da especialidade.

Em que aspeto?

Entrei na Estomatologia por gosto e comecei a ver a medicina dentária com outro carisma: conseguir pedir às pessoas que colaborassem no sentido de lhes aliviar a dor e fazê-lo com a maior suavidade que podia.

Começou a ver a profissão de outra maneira? Ou seja, se no início lhe fazia confusão o sofrimento…

Passei a controlar esse sofrimento e a tentar amenizá-lo para as pessoas se poderem deixar tratar. Foi assim que entrei e tomei gosto por aquilo que fazia.

Como conseguia acalmar as pessoas nas primeiras consultas?

É muito importante ouvir as pessoas, ter uma simpatia por elas, conversarmos, saber da sua vida – pelo menos até aquilo que nos permitirem – saber da sua família, do vizinho do lado, do cão. Porque tudo faz parte da pessoa. E se conseguirmos ter uma pequena conversa em que há um relaxamento, a pessoa colabora melhor. Mesmo numa criança, se apresentamos aparelhos que fazem barulhos isso não é bom. Comecei por ter música no meu gabinete e em algumas crianças em que era mais complicado trabalhar usava aqueles aparelhos em que se colocavam as cassetes e ouviam música através dos auscultadores. Permitia um grande relaxamento nas crianças.

Como passou de ajudante do Dr. Humberto a ter os seus próprios pacientes?

Foi fácil. Ele queria que fizesse logo a especialidade quando me licenciei, mas respondi que não podia ser. Tinha entrado em Medicina para fazer a carreira e fiz os graus todos até ser possível fazer os exames. Sou assistente graduada hospitalar. Acabei o curso já a trabalhar com ele e fiz aquilo que me era permitido, com a responsabilidade profissional que ele me deu. Mas depois fiz o serviço médico à periferia, que foi muito importante. Foi uma fase difícil, tinha uma bebé de cinco meses que ficou com os meus pais. O meu marido desdobrou-se entre os bancos e o seu trabalho, por não ter a mulher durante a semana, e eu estava na Sertã, onde fiquei um ano. Ia e vinha aos fins-de-semana. Depois fiz a carreira hospitalar, ao mesmo tempo que ia trabalhando com o Prof. Humberto. Sempre estive ao lado dele, até quando se iniciaram as conversações e o grupo fundador da Escola Superior de Medicina Dentária, que não se chamava Faculdade. Sempre estive agregada a esse grupo, composto por médicos estomatologistas.

Fiz as duas carreiras juntas, continuei sempre a trabalhar com ele no consultório e depois, perto da morte dele, ficaram os filhos e eu tinha os meus próprios doentes. Quando vim do serviço médico à periferia, no pós-25 de abril, escolhi Estomatologia porque era o que já fazia e passei a gostar. Não foi um amor à primeira vista.

Terminou o curso em 1974?

Sim. Quando se deu o 25 de abril tinha acabado de fazer um exame de Urologia e preparava-me para outro exame. Estava no Hospital de Santa Maria e os professores fizeram algo fantástico: como não podíamos fazer exames, porque a conturbação política era grande, estivemos em serviços excecionais onde nos obrigaram a ser integrados em equipas. Trabalhei até à altura de finalizar o ano letivo. Em vez de fazer os exames tínhamos avaliação feita por esses professores, mas a trabalhar em enfermaria. Fomos integrados nos serviços de medicina e cirurgia. Tive mestres muito bons. Só saí de Santa Maria quando fui fazer a especialidade, fiquei com a vaga do Hospital Egas Moniz.

E como foram os primeiros anos na Escola Superior de Medicina Dentária?

Foram fantásticos. Fomos considerados das melhores escolas da Europa. Dei aulas de Radiologia, na altura chamava-se assim e posteriormente passou a denominar-se Imagiologia, quando outras técnicas foram introduzidas.

 

Gostou do papel de professora?

Adorei. Na altura lecionava muitas horas e tinha de escolher alguns temas porque senão – desculpe o termo – acaba por ser uma ‘seca’. Algumas aulas eram na câmara escura, com máquinas em nada semelhantes com as de hoje, então tive de arranjar estratégias. Discutia sobre política. Um dia disse-lhes: para a semana preciso que me façam um trabalho de casa. ‘TPC?!?’, responderam os alunos! Sim, um TPC! Todos têm de ver o telejornal. Na altura devo ter feito uma pergunta e ficaram todos sem saber responder. Mas não veem o telejornal? Não leem um jornal? Não pode ser. Então TPC para a próxima semana é ver o telejornal para termos motivos de conversa. Tive o privilégio de a maior parte dos alunos ficar no pós final de aula obrigatório. E quando um professor, aliás eu era assistente convidada, é quase obrigado a expulsar os alunos da aula, isso é um privilégio. Tinha duas filhas da idade de muitos dos meus alunos, então tratava-os a todos por filhos. E eles imitavam-me. Tenho recordação de excelentes alunos, que me apercebi que iam ser excelentes profissionais. E são! Alguns foram galardoados este ano nos Prémios Saúde Oral, com muito orgulho para mim, mas tenho outros que são professores doutorados e são um orgulho. Ter alunos que nos respeitam e que se lembram de nós é um orgulho (pausa).

Tive o privilégio de ter um aluno, que é hoje professor, e que me deu uma aula com uma radiografia periapical. Não fiz pergunta nenhuma, só pedi para me descrever aquela radiografia e ele deu-me uma aula. Achei que tinha de lhe dar 20 valores.

Foi o único 20 que deu?

Foi o único 20 que dei.

Como se deu a sua entrada no Instituto de Implantologia?

Tive de sair de onde estava, obrigatoriamente e por minha vontade. Já apreciava muito o trabalho do Professor João Caramês e já lhe enviava alguns doentes para fazerem implantes. Levava as minhas radiografias e ia ter com o Professor ao seu consultório, já na Columbano Bordalo Pinheiro, na altura no 5º andar, e ia falar com ele sobre aquele doente. Fazia questão disso, pois os doentes gostam que se saiba deles. Mesmo que se envie o caso a outro colega, os pacientes gostam de saber porquê, saber se está tudo bem. É um carinho que se faz a um paciente, que não gosta de se sentir abandonado. Consegui que pessoas com mais de 70 anos fizessem ortodôncia, para melhorar não só o aspeto estético, como a higiene. Para melhorar a saúde oral.

Depois num dia fiquei sem local onde trabalhar, por minha vontade. Chorei um pouco e às 17h00 refiz o meu plano e pensei: tens centenas de fichas que ainda não estão contigo, centenas de pessoas que estão a depender de ti, é uma vergonha não resolveres a tua vida. A pessoa com quem trabalhava e admirava era o Professor João Caramês e foi a ele que recorri para pedir ajuda.

Como correu a conversa?

Ele foi de uma gentileza extrema. Compreendeu e fez aquilo que eu precisava. Ajudou-me numa altura difícil da minha vida, não há palavras para lhe agradecer. Trabalhei no Instituto de Implantologia durante 15 anos até me reformar.

Como vê a evolução da medicina dentária?

A evolução da técnica é fora de série, principalmente no alívio do doente. Desde a ortodôncia – fiz o primeiro curso ministrado em Lisboa pelo Prof. Pereira da Cruz. Fazia os estudos ostodônticos a partir de uma radiografia para o Prof. Ferreira da Costa, e fazia-se uma previsão de crescimento da criança e o aparelho a usar. Quando o Prof. Pedro leitão regressou especializado passámos a ter a ortodôncia fixa e foi com ele que comecei a trabalhar. Sempre gostei muito de trabalhar com outras pessoas e de introduzir ao doente o conceito de que, para ser bem tratado, tinha de procurar as pessoas de topo. Hoje em dia, devido à alta especialização que temos, não se pode abranger tudo. Quem disser que sabe fazer tudo é uma asneira grave. Mas quando comecei tínhamos de saber fazer de tudo, assim aprendi porque assim se usava na altura. Quando comecei a ver uma ligeira especificação em algumas áreas fiz questão de escolher as pessoas para que os meus pacientes pudessem usufruir dessa especificação. Isso ia permitir uma melhor qualidade do tratamento final comparativamente ao que seria só feito por mim.

Reformou-se há quatro anos. Tem estado afastada do meio?

Nestes quatro anos fui autarca. Foi uma experiência extraordinária. A pessoa que me ensinava política era o meu pai. Sabia muito. O meu avô já tinha estado muito interveniente na revolução de 1910. Já o meu pai não era um político intervencionista, mas era um homem que sabia muito. Era muito inteligente e eu não discutia política, aprendia com ele. Nunca na vida pensei estar ligada a um cargo político. Aceitei o convite do Dr. Daniel Gonçalves, que presidia a Junta de Freguesia de Avenidas Novas.

Quais as suas funções?

Fui para o executivo com os pelouros da Saúde e da Educação, mais tarde fui tesoureira. Fui sempre independente convidada por uma lista do PSD. Na altura o convite surgiu por amizade e pelo bom senso e honestidade. Gostei muito e fiz o melhor que pude. Deixei amigos. Deu-me uma outra visão do que se pode fazer e da altura em que se faz e o tempo que demora.

Hoje em dia fala-se muito das dificuldades que os jovens enfrentam, nomeadamente com a falta de emprego. Como vê a medicina dentária hoje em dia?

Desde que entrei na Escola Superior de Medicina Dentária sempre pugnei pela orientação dos jovens que saiam da faculdade. Na altura o curso tinha 16 alunos. Depois duplicou e nessa altura já ficámos aflitos pela prática que podiam ter na faculdade. Hoje em dia, a faculdade teve remodelações, mas sempre achei que não fazia sentido os alunos saírem dos cursos e serem completamente autónomos. Deviam ser integrados nas unidades hospitalares. Hoje temos higienistas orais integrados no Serviço Nacional de Saúde, bem como médicos dentistas e era assim que já via o panorama, no início da faculdade. Tudo está a mudar. A saúde oral é tão importante como o resto do corpo, não se limita a ter dentes bonitos.