Entrevista

Estudo português sobre prevalência de anatomias em C nos molares inferiores publicado no European Journal of Dentistry

Jorge Martins - médico dentista

Jorge Martins publicou recentemente no European Journal of Dentistry um estudo sobre a prevalência de anatomias em C nos molares inferiores na população Portuguesa. Estivemos à conversa com o médico dentista que explicou como surgiu a oportunidade de realizar o estudo e quais os próximos projetos.

Como surgiu a ideia de preparar o estudo?

Ao longo dos meus dez anos de prática exclusiva em Endodontia já me deparei com inúmeros casos de segundos molares inferiores com configuração em C. E fiquei sempre com a ideia que a prevalência desta anatomia, nestes dentes, era bem superior aos 4% que eram reportados na literatura cientifica para uma população Caucasiana europeia.

Recentemente foi publicado um novo estudo que reportou uma prevalência de aproximadamente 11%. As grandes diferenças descritas entre estes estudos levou-me a analisar com cuidado os mesmos e verifiquei que, além das diferenças inerentes a cada população, foi o estudo que reportava menor prevalência ter utilizado radiografias periapicais como meio de análise, um método claramente falível na detecção destas configurações anatómicas, ao passo que o trabalho mais recente ter utilizado o CBCT para recolha de dados.

A minha convicção que a média em Portugal era superior a esses 4%, e apoiado pelos dados publicados mais recentemente, fez-nos decidir em realizar um estudo que nos desse as características aproximadas do que acontece com a nossa população.

Durante quanto tempo decorreu o estudo?

Demorou muito tempo. Realizámos um estudo preliminar no inicio de 2014 com o objectivo de ter uma ideia do que poderiamos encontrar. E a partir dessas informações realizámos um plano para a recolha de dados que decorreu até ao final do ano de 2014, ou seja, durante quase um ano.

Daí para cá foi o processo normal de interpretação de dados, elaboração do manuscrito e processos de submissão que por vezes podem demorar longos meses, o que acabou por acontecer neste caso. No entanto, este foi um dos nossos primeiros trabalhos de prevalência de um tipo específico de configuração anatómica na população Portuguesa que realizámos. Desde 2014 até 2016 foram recolhidos mais dados com vista caracterizar outros aspectos anatómicos de uma amostra nacional, ou seja, já vamos com quase três anos de trabalho neste projecto.

Quais as principais dificuldades com que se depararam?

Uma das dificuldades inerentes a este tipo de recolha passa por conseguirmos ter acesso a uma base de dados com uma amostra suficientemente relevante que pudesse servir de base ao trabalho. Isso foi conseguido com a ajuda do Instituto de Implantologia e do Prof. Dr. João Caramês, ao qual quero deixar um agradecimento publico pelo apoio e motivação na divulgação deste tipo de trabalhos.

Outra dificuldade foi uma inesperada resistência por parte das revistas de grande factor de impacto em aceitarem um trabalho com uma amostra Portuguesa. Apesar dos manuscritos submetidos passarem o crivo inicial dos editores chefes das principais revistas verificávamos que as considerações mencionadas pelos árbitros não se deviam à qualidade científica dos mesmos, mas sim por terem sido realizados numa população Portuguesa a qual não consideram expressiva a nível internacional. Obviamente que consideramos isto muito discutível, e foi algo que a uma certa altura nos fez pensar muito se se justificaria continuar com o projecto. Felizmente não desistimos.

É importante a existência deste tipo de estudos para analisar a realidade Portuguesa?

Sim, claro. São importantes pois os nossos alunos aprendem o que é descrito em estudos de anatomia em populações Chinesas, Americanas, Coreanas, Brasileiras e outras, e isso pode não ter nada a ver com o que na realidade acontece a nível nacional, uma vez que estão documentadas e comprovadas variações étnicas e geográficas no que diz respeito à anatomia dentária.

Quais as conclusões a que chegaram?

Neste trabalho específico concluímos que a prevalência de configurações em C do sistema canalar nos segundos molares inferiores foi de 8,5% numa amostra de 1088 segundo molares. Ou seja, efectivamente bem mais elevada que o resultado do trabalho que tem vindo a ser apontado como uma referência para a população Caucasiana europeia.

Observamos também que a prevalência da mesma anatomia para o primeiro molar inferior é significativamente mais baixa com 0,6%. De realçar que este tipo de anatomias do sistema canalar em C são das mais complexas de abordar do ponto de vista endodontico, daí a sua importância para os clínicos.

Está envolvido em algum outro estudo a divulgar no futuro?

Sim,  a multidisciplinaridade existente no Instituto de Implantologia permite a partilha de ideias e o desenvolvimento de novos projetos, o que nos permitiu criar uma linha de pesquisa sobre diversas características morfológicas referentes à configuração anatómica do sistema canalar e raízes da dentição permanente.

E que após a relutância inicial, conseguimos contornar as dificuldades com publicações em revistas com grande visibilidade como são os casos do Journal of Endodontics e International Endodontic Journal acreditando que o trabalho não se esgotou nestas publicações e que ainda teremos dados interessantes para publicar num futuro breve.