Investigação

Estudo português analisa prevalência das três maiores doenças orais crónicas

Estudo português analisa prevalência das três maiores doenças orais crónicas

Os investigadores nacionais Miguel de Araújo Nobre e Paulo Maló viram um dos seus mais recentes trabalhos ser publicado na revista científica Journal of Dentistry. A investigação faz uma análise epidemiológica sobre as três principais doenças orais crónicas: cárie dentária, periodontite e patologia peri-implantar.

No âmbito deste estudo, os investigadores contaram com uma amostra de 22 009 pacientes – 9035 homens (41,1%) e 12 974 mulheres (58,9%) – com uma idade média de 48,5 anos e analisaram a prevalência destas três doenças orais crónicas.

Miguel de Araújo Nobre falou com a SAÚDE ORAL e refere que ver mais um trabalho publicado numa revista científica internacional “é sempre um motivo de orgulho.” De acordo com o investigador, “esta publicação, em particular, começou com a ideia durante o Mestrado de Epidemiologia da Faculdade de Medicina de Lisboa e culmina com um conjunto de tarefas herculanas: desde o treino e calibragem dos clínicos nas nossas clínicas nacionais, da coordenação da recolha de dados que culminou numa base de dados com 861 247 entradas para estes 22 009 pacientes, passando pela análise dos dados que após codificações e recodificações de variáveis redundou numa base de dados com mais de 1 milhão e 600 mil entradas; encerrando na publicação do trabalho (que do que conhecemos é o primeiro estudo de vigilância epidemiológica na medicina dentária envolvendo as três principais doenças orais crónicas) numa revista com elevado fator de impacto como o Journal of Dentistry.”

Os resultados agora divulgados mostram que 65,6% dos pacientes possuíam pelo menos uma condição aguda (gengivite ou mucosite) e que 46,5% dos pacientes possuíam pelo menos uma das três principais doenças orais crónicas: cárie dentária, periodontite ou patologia peri-implantar cujas prevalências foram 36,6%, 17,6% e 13,9%, respetivamente.

O investigador Miguel de Araújo Nobre

O investigador Miguel de Araújo Nobre

Segundo o investigador, “a distribuição das doenças orais crónicas foi significativamente diferente entre pacientes saudáveis e pacientes com condição sistémica quando controlados para a idade e género nos modelos de regressão logística calculados”. Miguel de Araújo Nobre revela ainda que “os hábitos tabágicos foram a única variável cuja influência se registou nas três doenças orais crónicas.”

“Este estudo serviu de base para a criação de pontuações de risco para a cárie dentária, periodontite e patologia peri-implantar que possam ser úteis para os clínicos (identificando pacientes em alto risco de desenvolvimento da patologia) e para os pacientes (motivando-os a modificar fatores de risco). O primeiro passo já foi dado com a criação da pontuação de risco para a Patologia Peri-implantar, adotada pela Foundation for Oral Rehabilitation que a disponibilizou para uso livre e que poderá ser incorporada em qualquer consulta de avaliação ou manutenção em Medicina Dentária.”

O investigador conclui referindo que “deve-se ter em conta que as patologias crónicas são de causa multifatorial, pelo que são necessários modelos mais robustos com inclusão de outros fatores de risco e confundentes para gerar resultados mais válidos. Por exemplo: a patogénese da cárie dentária é muito dependente de fatores relacionados com o estilo de vida como a dieta; a Periodontite é influenciada por outros potenciais indicadores de risco como a placa bacteriana que por sua vez também pode atuar como potencial confundente na patologia peri-implantar; a história de Periodontite representa um potencial indicador de risco para a patologia peri-implantar e que por sua vez está fortemente associado aos hábitos tabágicos.”

Além disso, Miguel de Araújo Nobre sublinha que “é inegável que o tabaco influencia significativamente a saúde geral e a saúde oral e que este representa (e isto são as boas notícias) um fator modificável pelo que são necessárias medidas que visem a cessação tabágica. É necessário muito investimento na educação e promoção da saúde para com os pacientes por parte dos clínicos sendo esta responsabilidade transversal a todas as profissões da área da saúde.”