Formação

Cursos hands-on: as vantagens de “meter as mãos na massa”

A oferta é diversificada e abrangente: universidades, empresas ligadas à formação, clínicas dentárias e farmacêuticas estão a apostar na qualificação através de cursos hands-on. Nos congressos médicos, cada vez mais se aliam conhecimentos teóricos a uma aprendizagem mais prática para conquistar adeptos de todas as idades e com diferentes anos de experiência.

É uma ideia comum partilhada por vários médicos dentistas: a importância da formação contínua ao longo da carreira. A inovação não para de surpreender e é essencial estar atualizado no que respeita às técnicas mais recentes e aos tratamentos de vanguarda.

José João Mendes

Existem vários programas formativos à disposição e não há hoje congresso médico que não apresente alternativas nesse plano. Os cursos hands-on, conhecidos pela vertente prática e pela aprendizagem num curto espaço de tempo, são uma das alternativas ajustadas à prática clínica dos médicos dentistas. “Por um lado, as atividades formativas possibilitam o contacto com abordagens clínicas inovadoras e, por outro, permitem a aplicação prática dos conceitos ministrados durante o curso”, explica José João Mendes, presidente da direção da Cooperativa de Ensino Egas Moniz e diretor clínico da Clínica Dentária Egas Moniz, no Monte da Caparica.

No sentido de modernizar e alargar a oferta formativa universitária atual, a Egas Moniz disponibiliza cursos hands-on, que José João Mendes define como “elementos críticos de sucesso” e que surgem como um complemento do ensino pré-graduado e pós-graduado. O presidente da direção destaca a sua “relativa diversificação (incluindo processos de re-skilling) e especialização (isto é, up-skilling)”. A ideia é atrair colegas e outros profissionais de medicina dentária, mas também “novos públicos nacionais e internacionais, que tenham como preocupação a formação ao longo da vida”.

“O nosso país, à semelhança da qualidade ministrada das nossas universidades, está na vanguarda na qualidade e inovação na medicina dentária” – José João Mendes, Egas Moniz

A maior parte da procura vem de médicos dentistas mais jovens, ainda que a Cooperativa disponibilize cursos para todas as idades, desde os mais novos, servindo como aperfeiçoamento da formação, aos seniores, que procuram normalmente uma atualização de conhecimentos e querem acompanhar a evolução da medicina dentária digital. “Temos cursos de curta duração, cursos modulares e cursos de especialização de acordo com as necessidades dos profissionais e da sua capacidade em conciliar a sua atividade profissional com a formação, isto é, cursos durante a semana, ao fim de semana ou intensivos com imersão total”, explica o presidente da direção.

José João Mendes destaca a excelência das pós-graduações que compõem a oferta da Egas Moniz, uma vez que todas “têm certificação universitária e créditos educativos europeus, o que constitui uma mais-valia e garantia de qualidade para quem as procura”.

Especificamente destinados a quem queira conhecer algumas das principais técnicas e tecnologias disponíveis, os cursos hands-on de curta duração permitem “meter a mão na massa”, como defende a médica dentista e professora universitária da Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário – Instituto Universitário de Ciências da Saúde (CESPU-IUCS), Filomena Salazar. “Estes cursos têm de fazer parte do quotidiano e assumir relevância na formação profissional da medicina dentária, porque permitem que os profissionais recordem melhor (memória visual) e discutam qualquer dúvida que tenham sobre técnicas, materiais ou equipamentos, in loco, proporcionando uma orientação correta para a sua aplicação, bem como uma maior motivação para formação, e consequentemente, aplicando com melhor compreensão à prática clínica, o que proporciona uma maior taxa de sucesso”, adianta.

Várias opções

A CESPU-IUCS, em Paredes, tem vários cursos hands-on divididos em dois níveis de ensino. “Os que são tutelados pela CESPU Formação são cursos de pós-graduação, com duração de um ano, não conferentes de grau académico, mas com ECTS (sigla inglesa para sistema europeu de transferência e acumulação de créditos), e proporcionam ao aluno o ensino pós-graduado de todas as áreas da medicina dentária. Os tutelados pelo IUCS são cursos conferentes de grau académico, nomeadamente, os cursos de mestrado, com duração de dois anos, e os cursos de especialização com duração de três anos”, explica José Manuel Mendes, médico dentista, professor auxiliar e coordenador do curso de mestrado em Reabilitação Oral do IUCS, em Paredes, e do curso de especialização em Reabilitação Oral e Prostodontia do mesmo instituto.

Foi em 2005 que a CESPU-Formação iniciou a aposta em cursos de pós-graduação de dois dias por mês, com módulos e programas que incluem sempre práticas hands-on.O nosso método integra uma abordagem teórica, hands-on (demonstração) e prática clínica”, acrescenta Filomena Salazar. Nos 12 cursos de diferentes áreas da medicina dentária, a média de alunos presentes em cada um varia de 15 a 20, e a taxa de ocupação oscila entre os 95 a 100%.

“É certo que Portugal iniciou esta tipologia de cursos com base em experiências desenvolvidas em outros países, mas rapidamente se colocou ao nível – e em algumas áreas supera – de outros congéneres no que respeita à qualidade formativa” – Filomena Salazar, CESPU-IUCS

Tanto na Egas Moniz como na CESPU-IUCS, formadores nacionais e internacionais têm know-how específico e são responsáveis por lecionar estes cursos. Estas formações realizam-se em horário pós-laboral, incluindo os fins de semana, para que os interessados possam adequar a sua disponibilidade. “Aqueles que estão englobados nos mestrados e nos cursos de especialização exigem uma disponibilidade maior por parte dos alunos, mas quem os frequenta são médicos dentistas que procuram diferenciação específica numa determinada área da medicina dentária”, defende José Manuel Mendes, do IUCS.

A organização destas formações implica que o formador tenha uma panóplia de ferramentas que induzam aos destinatários a manipulação de técnicas, materiais e instrumentos que estão na vanguarda da ciência e da tecnologia. “É de realçar que é comum a utilização de salas pré-clínicas para a realização destes cursos, que são muitas vezes complicadas de gerir. Como na CESPU estes cursos são realizados no instituto, esta dificuldade é facilmente contornável”, sublinha.

A Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) tem vindo a desenvolver um trabalho alargado através do Centro de Formação Contínua (CFC), oferecendo várias possibilidades, quer no congresso anual da OMD, quer ao longo do ano. Foi há seis anos que o CFC decidiu apostar nos cursos hands-on com o intuito de permitir que os colegas com formação teórica coloquem em prática os conhecimentos que adquiriram anteriormente. Especificamente organizados para 20 pessoas, estes cursos podem decorrer ao longo de um dia e, no caso do congresso, têm a duração de uma manhã ou tarde.

Ricardo Faria e Almeida

“Hoje em dia, temos mais de 50 cursos organizados anualmente, em Lisboa, no Porto e no Algarve, e deste total, oito a nove cursos são cursos hands-on. Estamos neste momento a tentar organizar formações na Região Autónoma da Madeira”, explica Ricardo Faria e Almeida, presidente do CFC e do conselho diretivo da OMD. Nos últimos quatro anos, dado o grande interesse por parte dos médicos dentistas para realizar estes cursos, o Congresso da OMD começou a integrar cursos isolados e muito direcionados para técnicas específicas. “Alguns deles até com apoio de casas comerciais que ajudam a pôr em prática a parte logística das formações”, refere o também presidente da Comissão Científica deste Congresso.

À parte disso, os cursos hands-on também estão contemplados na formação contínua através de uma vertente prática das matérias teóricas lecionadas ao longo do ano. “A adesão tem sido enorme, mas deparamo-nos com uma dificuldade logística, não só relativa aos materiais necessários, mas também por não conseguirmos receber um número maior de participantes. Se tivéssemos muito mais gente, perderia um pouco o sentido e estes cursos seriam muito menos direcionados”, diz Ricardo Faria e Almeida.

“Tentamos que todos se sintam, de certa forma, contemplados com esta formação específica. Dentro das limitações organizativas, temos tentado aumentar o número de cursos sempre que possível” – Ricardo Almeida e Faria, OMD

Todos os anos, são cerca de três mil as pessoas a frequentar os cursos de formação contínua. Destes, cerca de 140 optam pelos cursos hands-on. “Recebemos seis mil pessoas no congresso anual, o que nos permite fazer inquéritos de sugestão e de satisfação para avaliar se estamos a corresponder às necessidades.”

As formações são idealizadas com a devida antecedência, estando já delineado o programa de 2020. Já foram feitos convites a oradores, e, em agosto de 2019, o programa ficou fechado.

Procurar cursos certificados

Também algumas empresas e a própria indústria farmacêutica acabam por apostar neste tipo de cursos. É o caso do Centro Europeu de Pós-Graduação – Medicina Dentária (CEPG-MD), no Porto. “As práticas em hands-on são fundamentais em todos os cursos que realizamos nas mais diversas especialidades. Este é o primeiro passo para o profissional adquirir a base do conhecimento e participar de simulações de atos cirúrgicos, dentisteria, próteses fixas, preenchimento facial, elevação do seio maxilar, entre outros. Somente após esta prática, o aluno estará apto a acompanhar os casos clínicos reais e temos a convicção que se não fosse a prática em hands-on, o índice de fracassos clínicos seria superior”, explica o fundador e diretor científico, Hiram Fischer.

O CEPG-MD iniciou a sua atividade em Portugal, em 1996, e realiza formações de vários temas e especialidades desde então, tendo aumentado progressivamente o volume de ofertas neste plano ao longo destes 23 anos. “Durante todas estas formações são indispensáveis as práticas em hands-on. Temos sempre o cuidado de adquirir modelos de qualidade, que sejam o mais próximos possível da peça anatómica original, para que a prática tenha melhores resultados. A periodicidade dos cursos é relativa e distribuída ao longo do ano. O CEPG-MD é uma entidade reconhecida pelo DGERT e isento de IVA, o que aumenta a nossa responsabilidade”, explica o responsável.

Hiram Fischer

Todos os elementos contam: os equipamentos necessários, os instrumentos, os modelos anatómicos e os formadores. E os desafios logísticos já referidos neste artigo também são uma realidade nesta empresa. “Em algumas situações, temos dificuldade em encontrar modelos com as melhores características para o exercício de simulação. Com o passar do tempo e as necessidades, fomos à procura de fornecedores nos mais diversos países e temos hoje uma relação muito interessante de empresas que nos fornecem todo o material necessário para as práticas”, destaca Hiram Fischer.

Paralelamente, o centro atualiza no seu site (www.posgraduacao.eu) informações sobre outras formações, com indicação dos horários, formadores e programas respetivos. “Consideramos que os cursos hands-on são muito importantes como base de conhecimento, mas não são suficientes para o domínio de técnicas clínicas e cirúrgicas”, salienta o diretor científico, alertando para a oferta mais alargada e regular que o CEPG-MD disponibiliza.

“Consideramos que os cursos hands-on são muito importantes como base de conhecimento, mas não são suficientes para o domínio de técnicas clínicas e cirúrgicas” – Hiram Fischer, CEPG-MD

Também a BeClinique, com clínicas em Mafra, Dubai e Lisboa, divulga as suas formações (www.beclinique.pt), atualizando regularmente a oferta. “Todos os cursos que realizamos no nosso centro de formação belearning possuem uma forte componente prática. Realizamos habitualmente dois cursos por ano de implantes e prótese sobre implantes, dois cursos de reabilitação oral sobre dentes e ainda duas edições dos cursos de cirurgia de dentes inclusos. Este ano, teremos ainda o Curso de Harmonização Facial e iremos ter a primeira edição do Curso de Fotografia Aplicada à Medicina Dentária. Somos também os representantes do Steigmann Institute, em Portugal”, explica o formador e diretor pedagógico de belearning, Dárcio Fonseca.

Dárcio Fonseca

No que respeita aos desafios da gestão destes cursos, o formador defende que, se os mesmos incluírem prática clínica em pacientes, há que acautelar que os tratamentos sejam realizados nas datas e horários previstos. “Se a prática for realizada em mandíbulas de animais ou artificiais, os desafios prendem-se com a logística necessária para ter as quantidades disponíveis nas datas dos cursos. Mas já temos bastante experiência em organizar formações com ambas as tipologias de componente prática, pelo que, regra geral, gerimos facilmente toda a logística associada à mesma”, destaca.

Iniciativas da indústria  

Tanto o Straumann Group como a Neodent costumam realizar vários cursos teóricos e práticos ao longo de todo o ano, muitos deles com vertente prática e hands-on. Os últimos “abordam vários temas, desde implantologia, periodontologia, reabilitação sobre implantes, regeneração óssea guiada, hands-on em sinus lift, cirúrgico e protético, e também com protocolos Pro-arch e Neo-arch”, explica Rita Sousa Franco, marketing & education support Straumann Group Portugal.

A fabricante de implantes apoia o curso Cirurgia e Prótese sobre Implantes, na Clínica Dentária D’Avenida, em Vila Nova de Gaia: “Oferece um programa prático e teórico lecionado por um corpo docente com muita experiência, aliado a um programa com um workflow totalmente digital”, diz a responsável. O próximo acontece nos dias 2 a 8 de novembro e ainda existem vagas disponíveis. Mais informações em http://bit.ly/2JXMJYe.

Os cursos hands-on de 2019 já estão lotados, mas a firma tem previstas novas datas no próximo ano. A marca Neodent também apoia e disponibiliza formações com uma vertente prática elevada. O objetivo passa “por dotar os médicos dentistas das ferramentas de diagnóstico e terapêuticas adequadas para abordar a implantologia diária de uma forma simples e previsível, colocando em prática estes conceitos e permitindo que os participantes apliquem as técnicas cirúrgicas e de restauração através da atividade hands-on em pacientes reais”, explica Rita Sousa Franco.

“Com o evoluir das várias especialidades de medicina dentária, os cursos que realmente fazem a diferença na formação dos médicos dentistas são aqueles que têm unidades de crédito ou que são creditados pela OMD” – José Manuel Mendes, IUCS

A formação é uma parte fulcral da Nobel Biocare, assentando na premissa de tratar melhor e, tanto quanto possível, organizando formações com práticas em pacientes para facultar uma aproximação real às técnicas a aprender, ainda que também assentem em modelos animais. “Hoje em dia, já não faz sentido organizar formações apenas teóricas, os cursos têm de ter uma vertente atrativa”, defende Brigitte Pinto, T&E manager ibérica. Os temas focados variam muito, mas assentam nas soluções e nos conceitos de tratamento da empresa, como o All-on-4®, a técnica de elevação de seio ou até no planeamento do tratamento com enfoque no DTX Studio.

A empresa organiza formações ao longo de todo o ano, sendo que o grande desafio passa por torná-las apelativas, convidando oradores de renome. “Acima de tudo, acreditamos que cada participante sai mais confiante, pois os cursos com esta vertente prática permitem uma real noção do que podem esperar e de como utilizar as soluções e conceitos nas suas práticas clínicas diárias.” Uma das formações que Brigitte Pinto destaca é a One-to-One, por ser personalizada e focada na relação próxima entre o formando e o formador. Para os próximos meses, e até outubro, estão programados cursos avançados e formações internacionais, estando a empresa a apostar também na formação online para dar resposta às novas necessidades do mercado.

Estas empresas acabam por facilitar a logística que este tipo de cursos acarreta. Por exemplo, na formação de mestrado coordenada pelo médico dentista José Manuel Mendes, no IUCS, são realizados vários cursos hands-on com este tipo de apoio. “No curso de mestrado em Reabilitação Oral do IUCS, existem parcerias com empresas externas à universidade, empresas de implantologia, de biomateriais e de equipamentos (fresadoras, impressoras 3D, scanners intraorais, etc.)”, diz o também professor auxiliar. São unidades curriculares, intituladas de “seminários”, com turnos de cinco horas em que os alunos têm a possibilidade de manusear materiais e os equipamentos mais avançados na atualidade. “Esta atividade só é possível com o patrocínio das empresas que fornecem os materiais e equipamentos.”

Como se posiciona Portugal?

A oferta em Portugal assemelha-se ao que existe no resto da Europa? Ricardo Faria e Almeida faz o paralelo com o que acontece em Espanha e denota que “a OMD tem uma atividade formativa muito mais presente”.

“Fazemos cursos para médicos dentistas, em maior número, espalhados por todo o País, e com um preço francamente reduzido. No caso de Espanha, por exemplo, muitas destas atividades são desenvolvidas por sociedades científicas”, considera, sublinhando que, em termos de oferta educativa, Portugal está ao nível de outros países mais desenvolvidos nesta área.

José João Mendes afirma que o nosso País está na vanguarda da qualidade e inovação em medicina dentária. “Na Egas Moniz, por exemplo, contamos com docentes internacionais no nosso programa formativo e não dispensamos a colaboração dos nossos docentes e de outros médicos dentistas portugueses, dando evidência à elevadíssima qualidade da especialidade.” Relativamente à disponibilização de cursos hands-on em congressos, tanto da OMD, como de sociedades científicas, o presidente da direção desta universidade considera que é indispensável para “despertar o interesse e democratizar o acesso a informação a um preço acessível, que deve ser complementado por formações de maior duração e com um maior contacto clínico, com os correspondentes ECTS atribuídos no plano universitário”. Em breve, existirão novas ofertas formativas nesta cooperativa de ensino, na área da medicina dentária digital, cirúrgica oral/implantologia, odontopediatria, dor orofacial, patologia oral, oclusão, entre outras, destacando-se ainda o lançamento de novos programas de especialização.

Filomena Salazar

Além de professor universitário no IUCS, José Manuel Mendes faz muita formação, tanto interna como no estrangeiro. Dada a sua experiência, considera que se assiste em Portugal a uma constante evolução e diferenciação dos médicos dentistas. “Existem numerosos cursos de formação no nosso País ao nível dos restantes países europeus, e um número crescente de profissionais que se diferenciam nas mais diversas áreas da medicina dentária e estão a ser direcionados para a docência na formação pós-graduada. Há uns anos, para um médico dentista entrar na era digital seria necessário ir para um país estrangeiro para realizar esta formação”. Hoje, em Portugal, já é possível fazer cursos nesta área, incluindo, virtualmente, destaca.

“É certo que Portugal iniciou esta tipologia de cursos com base em experiências desenvolvidas noutros países, mas rapidamente se colocou ao nível – e em algumas áreas supera – de outros congéneres no que respeita à qualidade formativa”, defende Filomena Salazar.