Ortodontia

Contenções ortodônticas: tratamento para a vida?

Quem inicia um tratamento ortodôntico, tem um longo caminho pela frente: além de durar anos, implica consultas regulares de controlo e uma vigilância apertada. Existem desafios a ter em conta para o sucesso e é cada vez mais comum direcionar-se um tipo de contenção ortodôntica personalizada a cada caso clínico, dependendo da idade. Numa espécie de “contrato” entre médico dentista e paciente, é essencial promover o conforto de ambos, e envolver o último como membro da equipa.

Hoje em dia Atualmente oferecem-se soluções mais confortáveis para os médicos dentistas e de acordo com as expectativas do paciente no que respeita às contenções ortodônticas, muito por culpa da investigação e da evolução tecnológica. O objetivo? Proporcionar maior conforto e cooperação entre ambos. “Caiu em desuso o fabrico de contenções fixas feitas em laboratório, assim como alguns aparelhos ortopédicos, entre outros”, explica Isabel Jorge, médica dentista com prática exclusiva em ortodontia e coordenadora do Departamento de Ortodontia da Clínica Hugo Madeira, em Lisboa.

Joana Vasco Henriques, médica dentista com prática exclusiva em ortodontia na Malo Clinic, na capital, refere as placas termoformáveis como as mais modernas nesta área. “Por serem transparentes e apresentarem um encaixe perfeito na arcada dentária, tornam-se impercetíveis na boca dos pacientes e interferem menos com a sua fonética. Além disso, apresentam também uma elevada eficácia biomecânica.”

Loana Rondelli

A inovação é referida também por Loana Rondelli, especialista em ortodontia da MD Clínica, em Lisboa. “As contenções em materiais termoplásticos não são uma novidade recente na ortodontia, mas o seu uso está a ser cada vez mais habitual devido ao avanço tecnológico em relação aos materiais termoformáveis, sendo estes mais estéticos e confortáveis em relação aos confecionados em acrílico, como por exemplo, os aparelhos de contenção de Hawley.” Este aparelho, que surgiu nos anos 1920, foi utilizado como contenção durante largas décadas, “sendo ainda atualmente escolhido por ter a vantagem de permitir um melhor assentamento da oclusão”, sublinha. No entanto, começou a cair em desuso por questões de estética e de conforto.

Para que a fase de contenção seja previsível, é essencial que o material seja resistente, mas ao mesmo tempo confortável. “Os materiais anteriormente utilizados muitas vezes, não cumpriam tão bem estes requisitos”, defende Marina de Praetere, médica dentista, com prática exclusiva de ortodontia há mais de 20 anos. O destaque da também diretora clínica da MD Clínica vai para o avanço tecnológico em relação “ao controlo do tempo do uso dos aparelhos, tais como softwares e aplicações de telemóvel que podem ser controladas tanto pelo profissional quanto pelo paciente”.

Também Carlos Amorim, médico dentista especializado em ortodontia da Kids&Teens – Clínica de Especialidades Pediátricas, em Lisboa, avança que têm sido realizados estudos sobretudo em duas vertentes: “Materiais usados na confeção das contenções e possibilidades terapêuticas, como agentes biomédicos, que poderão ajudar os pacientes a manter os dentes em posição estável.”

Há muitas décadas que se tem verificado a necessidade de uso de contenções ortodônticas: “Desde cedo se chegou à conclusão que a ortodontia funciona mas, para tal, é necessário um diagnóstico cuidado e preciso, avaliando cada caso clínico como um caso particular e não tentando obter uma receita predeterminada para diversos pacientes”, explica o médico. A avaliação é fundamental.

Isabel Jorge

A evolução da medicina dentária na área de contenções dentárias divide-se em vários aspetos, segundo Carlos Amorim. “A fase de contenção é obrigatória, desde logo, porque os tratamentos ortodônticos, mesmo aqueles concluídos de forma muito estável, têm tendência a recidivar. Este fator depende não só do posicionamento dos dentes, mas também do padrão facial e maxilar que o paciente apresenta, da função muscular, da respiração, dos hábitos funcionais e parafuncionais, etc.”

Em segundo lugar, a evidência científica tem sido capaz de ajudar os médicos dentistas a direcionar o tipo de contenção para cada caso clínico, o que torna a decisão terapêutica do médico assente em dados obtidos a partir de estudos credíveis. Por último, o médico dentista destaca os avanços quanto aos materiais usados ou mesmo no desenho dos aparelhos de contenção, que devem ter em consideração aspetos relacionados não apenas com os dentes em si, mas com toda a estrutura facial e maxilar do paciente. “Por exemplo, existe a noção de que um paciente com tendência maior para respiração oral, em detrimento de uma respiração predominantemente nasal, poderá ter a necessidade de uma contenção específica, por forma a poder controlar de forma mais precisa o posicionamento dentário”.

O paciente como parte da equipa

Os novos materiais vão surgindo, a prática clínica vai melhorando, mas há algo que também é crucial: a compliance. “No momento da escolha do tipo de contenção, é tida em conta a perspetiva médica aliada ao nível de colaboração do paciente”, sublinha Isabel Jorge. Podemos afirmar que o paciente faz parte da equipa e que a sua cooperação é essencial durante todo o tratamento. Para tal, os médicos dentistas partilham informações sobre cuidados de higiene, a importância da visita periódica em consulta para controlo das contenções, e o tratamento/método de utilização respetivo. “Um tratamento ortodôntico é sempre duradouro, seja este de um ou dois anos, e durante este período, cria-se sempre uma relação muito estreita entre o médico e o paciente. Assim, o último assume um papel muito importante ao longo de todo o tratamento e na fase de contenção, nas consultas de controlo”, defende a médica dentista da Clínica Hugo Madeira. Um bom planeamento do caso e a colaboração do paciente constituem a chave para o sucesso.

No entanto, nem sempre é um caminho fácil. “É um desafio motivá-lo após um longo caminho percorrido pelo tratamento ortodôntico ativo, tendo ainda de sujeitar-se a uma fase passiva que requer a sua colaboração para o êxito total do tratamento”, destaca Loana Rondelli. Se o paciente seguir as instruções do seu médico, será muito mais fácil atingir os objetivos propostos. “Por norma, é fácil explicar os cuidados a ter no plano da higiene oral em casa e dos aparelhos de contenção”, explica Carlos Amorim.

Um dos maiores constrangimentos no tratamento surge quando se recomenda que uma contenção removível seja usada durante 24 horas, numa fase inicial. “Ao longo do tempo, há tendência para abandonar o uso das contenções e manter a correta higiene das mesmas”, refere Isabel Jorge. “Deste modo, o paciente deverá realizar consultas de controlo a cada seis meses, por forma a garantir que continua instruído e motivado para o uso correto das contenções, assim como avaliar se as mesmas continuam adequadas para o seu efeito”, acrescenta.

O cansaço pode tomar conta dos pacientes, tornando-os menos recetivos ao uso dos aparelhos de contenção com o passar do tempo. “Na região entre caninos no maxilar inferior, onde normalmente é colada uma contenção fixa, existe uma certa dificuldade por parte do paciente para passar o fio dentário, mas é muito importante que a higiene seja feita corretamente, de forma a evitar a acumulação de tártaro nessa zona”, sugere Joana Vasco Henriques.

Carlos Amorim

É frequente surgirem dúvidas e preocupações relacionadas com o tempo de utilização, mas também relativas à estética. “Alguns pacientes referem também preocupação com a capacidade de realizar uma correta higiene oral, sobretudo em casos de contenções fixas. Estas são normalmente estéticas, visto ficarem adaptadas na superfície lingual/palatina dos dentes. Já as contenções removíveis acabam por ter sempre alguma implicação estética, sobretudo aquelas que são constituídas por uma base de acrílico com arcos e ganchos metálicos. Existem ainda algumas que são transparentes, mas que podem não ser indicadas em alguns casos”, destaca Carlos Amorim.

Constrangimentos consoante a idade

As contenções podem ser utilizadas por pessoas de todas as idades com diferentes constrangimentos e desafios. A diretora clínica da MD Clínica defende que “a fase mais crítica ocorre nas correções de dentição permanente precoce, em que a contenção deve ser usada obrigatoriamente até ao final do crescimento”. Segundo Marina de Praetere, “as alterações nas arcadas dentárias, tais como o trespasse horizontal e vertical, a distância intercanina e intermolar, o comprimento e a largura das arcadas, são processos dinâmicos que ocorrem ao longo da vida, independentemente de terem sido submetidas a tratamento ortodôntico, e essas mudanças devem ser encaradas como um processo fisiológico decorrente do envelhecimento humano”.

Nas crianças, as alterações do crescimento e o respetivo acompanhamento constituem desafios das contenções ortodônticas. Isabel Jorge afirma que, “na altura do pico do crescimento, os maxilares podem desenvolver-se assimetricamente e pode ser necessário algum tipo de modificação ou adaptação das contenções”. Como os mais jovens irão estar sujeitos a mais alterações ao longo da vida, os desafios são praticamente permanentes.

“Isto não significa que o paciente mais velho não venha a sofrer recidiva do tratamento e não tenha indicação para contenções”, afirma Carlos Amorim. A colaboração do paciente na utilização diária das mesmas também é fundamental nesta faixa etária. “Existem muitos fatores presentes na vida de um adulto que podem interferir na sua utilização e dificultar o uso correto da contenção”, defende a médica dentista da Clínica Hugo Madeira. “Tão ou mais importante do que a fase ativa de tratamento é consciencializar o paciente que, após terminar o mesmo, terá de usar as contenções para manter os resultados alcançados e conferir a estabilidade necessária”, salienta Joana Vasco Henriques.

Podemos então afirmar que as contenções ortodônticas são para a vida? Esta expressão, na opinião de Marina de Praetere, “assusta um pouco os pacientes”. O tempo de contenção poderá depender de muitos fatores: “Do eventual crescimento remanescente, da complexidade da má oclusão inicial, da estabilidade do sistema estomatognático em relação à fala, da deglutição, da respiração e da musculatura perioral. O grau de exigência do paciente também deve ser contemplado nessa decisão”, adianta. O primeiro ano após a fase ativa do tratamento acaba por constituir a fase mais crítica. “Os tecidos periodontais podem demorar até 12 meses para a sua reorganização.”

Marina de Praetere

Um paciente tratado em ortodontia será um caso para controlar regularmente. “Costumo dizer que o paciente que inicia tratamento ortodôntico, na verdade, nunca o termina, pois estará sempre a ser controlado na fase de contenção. O médico dentista ortodontista só conseguirá ter controlo no posicionamento dentário e dar garantia ao paciente de que os dentes se mantêm na posição correta caso este use aparelhos de contenção. Existem naturalmente zonas das arcadas dentárias mais estáveis – e outras menos estáveis – onde se poderá procurar fazer alguma descontinuação no uso das contenções, mas o paciente é cada vez mais aconselhado a utilizá-las no longo prazo”, partilha o médico dentista da Kids&Teens – Clínica de Especialidades Pediátricas.

Que evoluções faltam à prática clínica?

Que avanço poderia ser decisivo no futuro? Que inovações ou mudanças gostariam de assistir alguns dos médicos dentistas que participam neste artigo? “O ideal seria que deixasse de ser necessário usá-las. Mas os estudos existentes comprovam que isso não é possível, mesmo nos casos de maior estabilidade, visto que a posição dos nossos dentes é condicionada por vários fatores distintos. Para que se verifiquem evoluções, será fundamental tentar compreender e acompanhar os avanços que se vão registando a outros níveis no tratamento ortodôntico”, explica Joana Vasco Henriques.

Enquanto ortodontista, Carlos Amorim gostaria de poder informar os seus pacientes de que não necessitariam de usar contenções no final da fase ativa de tratamento ortodôntico. “No entanto, para isso, teríamos que modificar o que é a nossa fisiologia própria. Sabemos que um dente com um suporte saudável e presença de ligamento periodontal está sujeito a forças ao longo da vida (lábios, bochechas, língua, etc.) e que essas forças leves e contínuas são capazes de movimentar os dentes. Mesmo assim, talvez gostasse de assistir à evolução nos materiais usados, tornando-os mais confortáveis para o paciente usar e permitindo uma higiene oral mais fácil”, diz.