Entrevista

“Ainda há muitos mitos à volta da hipnose”

“Ainda há muitos mitos à volta da hipnose”

E se a hipnose clínica conseguisse ajudar os pacientes com fobia da cadeira do dentista? Podia aumentar a ida dos Portugueses ao dentista? Joana Crispim não só acredita que isso é possível, como está a desenvolver um projeto pioneiro de sessões de hipnoterapia para clínicas dentárias.

Como começou o seu interesse pela hipnoterapia?

A hipnose sempre foi uma paixão. A minha área é a Psicologia Clínica e costumo dizer que escolhi o curso de Psicologia pelo meu gosto pela hipnose. Esta ideia de associar a hipnose à medicina dentária surgiu porque algumas clínicas onde dou consulta também são clinicas dentárias.

E como surgiu o gosto pela hipnose?

Surgiu com o meu avô, que falava com grande paixão sobre a hipnose. Falava das técnicas, do transe, dos tratamentos possíveis com a hipnose. Foi professor universitário e quando se reformou é que se dedicou a esta área.

E acabou por seguir-lhe os passos?

Sim, mas primeiro entrei para o curso de Psicologia Clínica. Quando já estava a fazer a licenciatura comecei a estudar hipnose no London College of Clinical Hypnosis, em Lisboa e continuei para o mestrado. Tenho feito vários workshops e estou a terminar uma pós-graduação na Faculdade de Medicina também em hipnose clínica.

Como a hipnose clínica ajuda os pacientes na medicina dentária e como surgiu esta ligação à saúde oral?

Surgiu no seguimento das consultas que faço em clínicas dentárias. Assim nasceu a ideia de gravar em áudio protocolos de hipnose para que o paciente, quando estiver na cadeira do médico dentista, possa entrar em transe, dissociar corpo e mente e assim relaxar. Vamos trabalhar maioritariamente as fobias e os medos envolvidos. Mas a hipnose tem vários benefícios para a medicina dentária, por exemplo ajuda na reeducação do condicionamento aprendido anteriormente face aos estímulos: cheiros e sons, na anestesia hipnótica, na diminuição dos sintomas de tremores e sudorese associados aos medos, pode ainda ajudar no controlo da salivação, de hemorragias, e também no pós-operatório.

O que é a hipnose, o que faz e como se entra num estado de hipnose?

A hipnose é um estado alterado de consciência. Defendo que qualquer pessoa tem a capacidade para entrar neste estado, isto porque a nossa mente já tem uma capacidade natural de entrar em transe. E o que é o transe? Por exemplo: quando estamos no trânsito ou a caminho de casa e reparamos que já passámos por aquela rotunda e nem nos lembramos, ou já fizemos vários quilómetros e nem nos apercebemos. Ou quando chegamos a casa e parece que o carro se conduziu a si próprio, não nos lembramos do caminho. É o chamado piloto automático. Todos nós temos esta capacidade, não temos? Este fenómeno é um estado de transe. Na hipnose, o que fazemos é induzir o transe de forma artificial, através da nossa voz. Claro que temos algumas técnicas, mas passa por induzir o transe através da voz porque quando colocamos a voz sempre na mesma frequência, a mente do paciente entra no estado de transe através da frequência Alfa. A mente do paciente “desliga” e aí conseguimos aceder ao subconsciente, que é o propósito da hipnose.

E depois o que se processa? Ou seja, o paciente está na cadeira do médico dentista e a Joana também está na sala?

Com o projeto que estou a desenvolver, a ideia é que eu não esteja na sala e que o paciente esteja a ouvir uma gravação com a minha voz, com headphones, porque estamos a trabalhar com a frequência sonora. Para que a mente consiga captar só esta frequência convém que o estímulo auditivo esteja presente no ouvido, com headphones, para que desta forma não se misturem ruídos sonoros como as vozes tanto do médico dentista, como das assistentes.

Mas o paciente consegue ouvir o médico dentista?

Sim. Por exemplo, numa cirurgia convém que o paciente esteja relaxado e que consiga ouvir o mínimo possível o barulho dos instrumentos, o que pode aumentar o nervosismo e a produção de mais glândulas salivares, o que vai atrapalhar o trabalho do médico dentista. E esta é a ideia que estou a desenvolver, que está a ser patenteada, e que quero lançar em breve. Permite a adesão de clínicas dentárias de forma virtual, em que não é necessária a minha deslocação até à clínica em questão. Através de um link que irá ficar disponível no meu site será possível ter acesso a 3 sessões de hipnose, que podem ser feitas antes, durante e depois da cirurgia.

Porquê antes, durante e depois e não só durante o tratamento?

Antes porque convém sempre uma preparação prévia. Qualquer paciente que venha à consulta pela primeira vez vem por iniciativa própria ou recomendação médica, mas existem sempre barreiras psicológicas associadas. A verdade é que ainda há muitos mitos à volta da hipnose.

Pode dar exemplos desses mitos?

Temos pessoas que acham que não se irão lembrar do que se passou numa sessão, outras pensam que poderão dizer coisas que não querem, o que não é verdade. É exatamente como numa conversa, vamos lembrar-nos dos tópicos abordados, mas só das partes mais importantes. O que acontece na hipnose é um estado alterado de consciência, a pessoa está mais focada no estímulo ou na crença que estamos a trabalhar, como por exemplo no caso de fobias. Mais especificamente, na medicina dentária convém realizar uma preparação prévia para dissipar estes mitos.

Por norma essas fobias acontecem porquê? Más experiências?

Por norma sucedem na infância e ficam recalcadas no subconsciente porque ou a pessoa teve uma má experiência ou porque assistiu na televisão a uma má experiência, ou até porque um amigo foi ao dentista e apareceu com dores e a cara inchada. Neste caso, a criança vai reagir associando que ir ao dentista é uma experiência negativa. Logo aí cria uma barreira psicológica, que poderá traduzir-se na vida adulta como uma fobia que irá variar em grau, dependendo do evento traumático envolvido. Há muitos pacientes que evitam ir ao dentista e que só vão quando realmente já manifestam dor. É essa a experiência que pretendo inverter nos pacientes. Aliando a hipnose à área da medicina dentária é possível desmistificar o sofrimento associado ao dentista.

Há uma consulta de hipnose antes, durante e depois do tratamento na clínica dentária?

Sim, poderá ser necessário uma consulta depois do tratamento, mas deixo ao critério do médico dentista. Por exemplo, se estamos a falar de duas cirurgias convém uma sessão de hipnose antes de qualquer intervenção cirúrgica, outra durante a primeira cirurgia e outra sessão na segunda. Poderá não existir a necessidade de uma terceira sessão, como disse deixo ao critério de cada médico dentista. Ainda assim, esta última sessão poderá amenizar no caso de administração dos fármacos ou antibióticos na pós-cirurgia. A hipnose facilita nos processos de evolução dos tratamentos porque consegue ajudar ao nível da perceção da dor, tanto crónica, como aguda.

De que forma?

No fundo passa por reprogramar a mente inconsciente para que o paciente consiga passar pela dor e dar-lhe outro conceito.

Todas as pessoas podem entrar em estado de hipnose?

Sim, como já disse defendo que todas as pessoas conseguem entrar em estado de hipnose. Só não aconselho a pessoas que estejam sobre estímulos de substâncias psicoativas porque a nível neurológico estão sob o efeito de substâncias químicas que não são próprias do nosso organismo e já estão a provocar efeitos que se podem tornar alucinogénios. Também não é aconselhável a pessoas com determinadas patologias, nomeadamente diagnosticadas com esquizofrenia.

Mas é difícil ao médico dentista avaliar essa situação.

Exatamente. Daí que no conceito que estou a desenvolver a primeira avaliação poderá será realizada por mim caso o médico dentista pretenda a minha ajuda. Neste caso é fornecido não só o áudio, como guidelines, o meu contacto direto e um chat para que possamos trocar informações. Se necessário desloco-me à clínica para avaliar o paciente.

Quando arranca o programa que está a desenvolver?

No primeiro semestre deste ano. Já tenho algumas clínicas identificadas, no entanto ainda estou em estúdio a desenvolver o projeto. Outro benefício da hipnose remete para o nível do tempo de espera. As pessoas ficam horas de boca aberta enquanto estão deitadas na cadeira do médico dentista e a hipnose ajuda a relaxar todos os músculos, incluindo os músculos da articulação Temporomandibular (ATM). Assim, o paciente consegue estar de boca aberta sem manifestar grande sofrimento. Também ajuda a passar o tempo, ou seja, ocorre uma distorção no tempo, a pessoa está duas horas num tratamento e parece-lhe que esteve apenas 20 min.

Tem receio que a hipnose seja desvalorizada como ferramenta terapêutica?

O feedback que tenho recebido não é esse, até porque cada vez mais temos o conceito de trabalhar em equipa multidisciplinar. A nova geração de profissionais de saúde aposta nesta equipa multidisciplinar, no Brasil esta técnica já foi desenvolvida e é bem-sucedida. Há inclusive médicos dentistas a fazer formação na área, mas depois falta-lhes todo o background da psicologia que é tão importante na prática da hipnose quer ao nível do diagnóstico, quer nas designadas “surpresas da hipnose”.