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Medicina dentária e estética: “Um bom resultado estético não se deve sobrepor à saúde do doente”

medicina dentária e estética - Saúde Oral

Uma aparência natural. É isto que a medicina dentária persegue e por isso anda cada vez mais de mãos dadas com a estética. Diferentes materiais, cores, texturas e versatilidade permitem alcançar um aspeto cada vez mais natural.

A Medicina Dentária evoluiu muito nos últimos anos, principalmente no que diz respeito à “medicina dentária estética: facetas cada vez mais finas e naturais, branqueamentos, aparelhos invisíveis, sendo que com esta evolução também os pacientes se tornaram mais exigentes em termos estéticos”, lembra Alexandra Marques, diretora-clínica da MD Clínica. “Já temos muitos pacientes que, ao mudarem o seu sorriso, aproveitam e também aumentam os lábios ou corrigem o sorriso gengival com injetáveis”, acrescenta. Daí que, para a médica dentista, a Medicina Dentária e a medicina estética “são áreas que se combinam e completam cada vez mais”.

Ou então, como afirma Mariana Nunes, do departamento de Cirurgia Oral da MALO CLINIC, a “Medicina Dentária é estética! Podemos até dizer que em Medicina Dentária muitas vezes estética é saúde”. Neste sentido, a médica dentista explica: “quantas vezes a razão das consultas de avaliação passa, por exemplo, por dentes tortos? Para o doente são um problema estético, contudo para o médico dentista são também, potencialmente, um problema de saúde pelo risco em que coloca todo o aparelho estomatognático, pelos problemas de oclusão inerentes”. Por outro lado, qualquer reabilitação tem em vista recuperar/melhorar a função mastigatória, “mas sempre seguindo princípios de estética, cor, forma, harmonia e simetria”, continua Mariana Nunes, acrescentando que, por este motivo e para responder a estas exigências, existem hoje “diferentes materiais, cores, texturas e versatilidade que permitem a caracterização dos dentes (e por vezes até dos tecidos moles) de modo muito preciso. Também existe uma maior exigência na manipulação dos tecidos quer sobre os dentes, quer sobre implantes de forma a alcançar um resultado natural”.

A médica dentista da MALO CLINIC salvaguarda que a estética é “uma exigência transversal a todas as áreas de Medicina Dentária, nomeadamente dentisteria, ortodontia, periodontologia e implantologia”. Daí defender que o futuro da Medicina Dentária passa “sobretudo pela simbiose entre estética e função”. Hoje o grau de exigência e o tipo de objetivo dos pacientes é diferente de há uns anos e existem ferramentas que permitem antever o resultado estético final mesmo antes de quaisquer procedimentos, ou seja, “o paciente pode e quer ter um papel ativo nesse planeamento”. Por isso, Mariana Nunes destaca a importância do “aparecimento e aperfeiçoamento de mecanismos digitais, como o Digital Smile Design, cada vez mais precisos, aplicados quer no diagnóstico e planeamento, quer no próprio procedimento”. Ainda assim, “o médico dentista deve manter-se fiel ao título médico que o caracteriza e, por essa razão, nunca esquecer que um bom resultado estético não se deve sobrepor à saúde do doente”. Deve incidir “sobretudo na prevenção, desde logo nas alterações a nível de crescimento, numa ortodontia intercetiva e posteriormente em tratamentos não invasivos”.

Febre da estética

Paulo Monteiro, médico dentista com prática exclusiva em dentisteria restauradora e estética, concorda que a Medicina Dentária e a estética são campos quem devem “andar sempre de mãos dadas”. Contudo, reforça que “antes da estética está o bem-estar físico e a saúde do paciente”. Para o médico dentista, a estética na Medicina Dentária “não deve ser vista como um fim, mas como um meio para atingir um objetivo maior: o devolver ao paciente a autoestima necessária ao seu dia-a-dia”. Ainda assim defende que o futuro da Medicina Dentária “nada tem a ver com a estética ou, pelo menos, não deverá ter”. Isto porque, apesar de presentemente se falar muito “em estética, em tratamentos estéticos e as pessoas viverem obcecadas com isto, nem tudo na Medicina Dentaria está relacionado com a estética”. Por outras palavras “existe outro mundo para lá da estética. Esse sim, mais importante, que é a saúde do paciente”.

O médico dentista chama mesmo a atenção para o facto de muitas vezes “só por termos em mente essa ‘febre da estética’ não cuidamos da saúde do paciente. Quantas e quantas vezes vemos tratamentos totalmente desnecessários, com destruição dos tecidos dentários só para ‘melhorar a estética’. Inclusive o resultado ‘estético’ ainda resulta pior do que o original”.

A estética constitui “um dos focos dos tratamentos médico-dentários, embora por diversas razões de validade variável”, assegura João Carlos Ramos, médico dentista e autor do livro ‘Estética em Medicina Dentária’. “No contexto socioeconómico atual, onde importa recomendar sensatez na priorização das nossas preocupações vitais, conceitos como estética, cosmética, ética e deontologia devem merecer a devida atenção e reflexão, sob pena de serem seriamente sub(pre)vertidos por ‘valores’ vigentes de credibilidade questionável”. Assim sendo, “a estética deve ser encarada como parte integrante da arte e beleza naturalmente contida nos nossos trabalhos, individualizada, e não como um conjunto de meras técnicas acessórias e estereotipadas de promoção de imagem, normalmente baseadas em clichés sociais muito voláteis e frequentemente desarticulados dos mais nobres e básicos princípios de promoção de saúde”, declara.

Veículo de promoção de saúde

Para João Carlos Ramos, um dos desafios que a integração da estética na prática clínica trazem para o médico dentista passa por “conseguir bons resultados de forma previsível, conservadora, duradoura e economicamente acessível aos pacientes”. No entanto, defende que “também é importante otimizar e individualizar os procedimentos terapêuticos, encontrando uma forma coerente e ponderada de integrar os tratamentos estéticos como veículos de promoção de saúde”.

Ainda no campo dos desafios é necessário ter em consideração as expetativas do paciente e, neste sentido, Mariana Nunes fala do “papel do médico dentista na comunidade e na sua responsabilização nas expectativas do paciente”, explicando que “estamos na era do ‘aqui e agora’ e do quanto mais rápido melhor”. Deste modo, a médica dentista acredita que “é nosso dever esclarecer que nem todos os problemas têm uma solução rápida ou que a solução rápida é a mais eficaz. No fundo é nossa responsabilidade reverter esta ideia, pois a verdade é que muitos dos problemas apontados pelos doentes devem ser planeados com cuidado e, por vezes, o tratamento ideal é também o mais lento”. Mariana Nunes ilustra a situação: “quantas vezes para correção de um sorriso a solução ideal é a ortodontia (que exige meses de aparelho) enquanto a alternativa poderia ser, por exemplo, umas facetas (que em poucos dias estariam colocadas)?”. Mais uma vez, a ética e o princípio de seguir o tratamento menos invasivo “levar-nos-ia a aconselhar a ortodontia, mas é frequente o doente vir motivado para a obtenção de um resultado rápido e estético: é desafiante para qualquer médico dentista trabalhar em elevados graus de exigência”, sublinha. Porém, é ainda ‘exigido’ ao médico dentista uma “permanentemente atualização nesta área e ter sempre presente as novas técnicas e materiais do mercado para ir ao encontro do tal paciente exigente”, refere Alexandra Marques.

Uma ideia partilhada por Paulo Monteiro que afirma como a estética na Medicina Dentária é uma área em constante evolução “é necessário o médico dentista estar atualizado para acompanhar as possibilidades que pode oferecer ao paciente”. Este é um campo onde “não só as técnicas, mas também os materiais à nossa disposição são cada vez mais otimizados para soluções mais estéticas e funcionais”. Há por isso que acompanhar toda esta evolução e um dos melhores locais para isso “são as reuniões científicas”, salvaguardando que “não refiro aqui as exposições dentárias porque, apesar de importantes, muitas das vezes existe um forte marketing associado”.

O avanço do digital

A área da estética “é realmente muito grande”, diz Paulo Monteiro, e está em constante desenvolvimento. “Desde a área cirúrgica estética, à estética facial, à reabilitação estética, passando pelas tecnologias digitais e soluções CAD/CAM para reabilitações orais estéticas”, acrescenta. Em todas estas áreas têm existido grandes avanços nos últimos tempos, especialmente na área digital e nos materiais associados a essa tecnologia. Entre os vários avanços registados pode considerar-se que há alguns com maior preponderância.

João Carlos Ramos aponta a “integração da imagiologia nos procedimentos de diagnóstico, planeamento e decisão terapêutica, integrados com programas de simulação”. O médico dentista destaca igualmente “os avanços nos materiais e nas tecnologias, nomeadamente os relacionados com a adesão, as resinas compostas e as cerâmicas”. E, finalmente, indica “a evolução, o conhecimento e a capacidade técnico-científica dos médicos dentistas e dos técnicos laboratoriais de prótese dentária”.

Quanto a Mariana Nunes, a médica dentista começa por sublinhar que “na área do planeamento é altamente previsível e relativamente simples o que se consegue com um software de planeamento como o Digital Smile Design. É um ótimo guia de trabalho, apoiando o médico na obtenção do resultado final, bem como orientador para o doente”. Por outro lado “temos o aparecimento das cerâmicas feldspáticas, que permitem espessuras mínimas e, portanto, tratamentos minimamente invasivos associados a melhoria nos adesivos”, refere, sublinhando ainda, na área da implantologia, “o aparecimento de plataformas/pilares com vista a uma melhoria no contorno gengival e resultados estéticos a longo prazo colocando nesta área uma maior exigência a este nível”.

Já Alexandra Marques destaca a “aplicação de toxina botulinica na região perioral com técnica de mesoterapia, os novos produtos de preenchimento, a cirurgia de remoção da Bola de Bichat para estreitar a face, a utilização de fios na face”, sendo que são tratamentos no âmbito da “medicina estética facial com resultados muito naturais e feedback muito positivos por parte do paciente”.

25% dedica-se à estética

O relatório “Diagnóstico aos Profissionais De Medicina Dentária Em Portugal”, da responsabilidade da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), visa descrever os aspetos fundamentais que caracterizam a profissão de medicina dentária em Portugal. Para tal foi preparado um inquérito online direcionado a todos os membros ativos da OMD. Neste documento constata-se que mais de metade dos médicos dentistas dedica-se especialmente a uma área, sendo que 25% apontou a estética dentária. Salienta-se ainda que em 13.4% dos consultórios ou clínicas em Portugal é possível encontrar oferta de serviços de estética e bem-estar. Nestes casos, 70% oferecem massagens terapêuticas. Nos restantes 18% oferecem manicura e/ou pédicure, 9% estética facial, 9% terapias alternativas e 8% SPA’s. No entanto, a coexistência da Medicina Dentária com a medicina estética e bem-estar não recolhe muitas opiniões positivas, pois considera-se que descredibiliza a profissão. Apenas cerca de 20% acha bem esta coexistência.