Entrevista

João Carlos Ramos: “É preciso dignificar mais a Medicina Dentária”

investigador Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra

João Carlos Ramos licenciou-se em Medicina Dentária pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e continua ligado a esta ‘casa’ como professor e “investigador”. Foi aqui que o entrevistámos e que descobrimos que está a terminar a construção de uma nova clínica, em Aveiro, que vai passar a ser a sua nova casa. Um projeto de vida profissional para assinalar os 25 anos de carreira.

Por que motivo escolheu a Medicina Dentária?

Não posso dizer que tenha escolhido a Medicina Dentária por vocação. Conto esta história muitas vezes aos meus alunos para mostrar que a vocação é algo que se pode contruir com gosto e com trabalho. Até um ano antes de entrar na universidade queria ser oficial da Marinha. O meu sonho era navegar porque venho de uma família ligada ao mar. Mas fui sendo desmotivado a seguir essa vida pelo meu pai, que usou alguns argumentos que me pareceram a determinada altura (quando começamos a ganhar maturidade) válidos. De um momento para o outro vi-me órfão de ideias do que queria para o meu futuro. Como quase 80% dos pais, pelo menos da geração dos meus, queriam que os filhos fossem médicos, o meu também gostava que eu fosse médico. Eu não via com bons olhos a ideia de trabalhar em hospitais – hoje mudei completamente de ideias – e como sempre gostei de fazer trabalhos manuais (passei a adolescência a contruir jangadas na ria e cabanas nas árvores), pensei que a Medicina Dentária seria uma saída interessante pois conjugava um pouco de medicina com algo que em poderia usar o engenho e gosto pela “construção”. Por isso não posso dizer que tenha sido um sonho de infância, nem algo muito pensado. Mas, hoje em dia, se voltasse atrás não tenho dúvidas de que escolheria novamente a Medicina Dentária.

E quando é que a Reabilitação Oral surge na sua vida?

Penso que – como acontece a todos os alunos – temos professores que nos influenciam mais do que outros e temos áreas que nos motivam mais do que outras. De todas as áreas, a primeira que mais me motivou foi a dentisteria operatória, talvez pela possibilidade de numa única consulta poder mudar o sorriso de um paciente, de transformar algo feio e disfuncional em algo bonito e funcional. Progressivamente foi-se estendendo à prótese fixa, removível e culminou nos implantes, que é hoje uma parte essencial da minha atividade. Gosto especialmente da reabilitação oral integrada, de interagir com outros colegas multidisciplinarmente – ouvir, discutir, fazer brainstormings acerca daquilo que é a resolução dos casos – tomar cada caso como um desafio, interligar todo o conhecimento das diferentes áreas e reuni-lo num só plano de tratamento.

O ensino é, igualmente, uma parte fundamental na sua vida profissional…

Sim, comecei a dar aulas assim que acabei o curso, primeiro como monitor voluntário, depois como monitor contratado, mais tarde como assistente e finalmente como professor. Sem desprimor por qualquer outra profissão, duas das profissões mais difíceis da vida – e simultaneamente mais apaixonantes – são a de educador e de professor. O Ensino hoje em dia reúne estas duas vertentes: educar e ensinar. Deveríamos ser mais professores e menos educadores. Mas, na prática, não consigo dissociar as duas e apesar de os nossos estudantes serem adultos, temos de ir mais fundo do que ficar apenas pela transmissão do ensino científico e técnico. Temos de tocar as pessoas e fazê-las sentir. Muitas vezes a diferença não está na qualidade técnica ou científica daquilo que tentamos passar, mas na forma como o passamos, como interagimos com os alunos. Isto é algo difícil porque não temos uma fórmula mágica que nos permita chegar de forma eficaz e transversal a todos. Há uma frase que gosto muito e traduz tudo isto: “Diz-me como se faz e eu provavelmente esqueço-me; mostra-me como se faz e eu provavelmente lembrar-me-ei; faz-me sentir e eu jamais esquecerei”. Pode ser um provérbio, mas para mim reúne exatamente os pilares daquilo que deve ser o ensino.

medicina dentária

Na prática como faz isso, ou seja, como se leva os alunos ‘a sentir’?

Não é fácil e provavelmente não é eficaz com todos os alunos. Mas temos de sair parcialmente do nosso papel de professores, do nosso pedestal de conforto académico e hierárquico, e situarmo-nos como seres humanos, que estão a passar uma mensagem a outros seres humanos que também sentem, pensam e tratam seres humanos. Penso que é no capítulo das emoções e dos sentimentos que conseguimos passar do ‘diz-me e mostra-me, para o faz-me sentir’. Temos de mostrar quem é a pessoa que está por de trás do professor, o que sente, as amarguras, as esperanças, os erros. Isto é algo que tento implementar não só no ensino pré-graduado, como no pós-graduado, e até em simples conferências.

Como está o ensino da Medicina Dentária em Portugal, na sua opinião?

De um modo geral, o ensino da Medicina Dentária em Portugal é muito bom. Temos bons docentes, podendo haver diferenças pontuais de instituição para instituição, mas isso é algo compreensível. Paralelamente, o nível da Medicina Dentária em Portugal é globalmente elevado. Isto tem a ver com um facto que há uns anos a esta parte tem vindo a acontecer e que reside na existência de uma oferta de formação contínua de excelente nível, compatível com o que de melhor existe em qualquer parte do mundo. Temos hoje profissionais altamente qualificados em todas as áreas da medicina dentária, e não estou a falar apenas das faculdades. Existem excelentes clínicos a dar formação fora das universidades. Além disso, desde o início deste século algumas sociedades científicas, como a Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentária e a própria Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), encetaram programas de formação contínua com uma oferta em termos de qualidade e quantidade acessível a todos.

investigação em medicina dentária

O que significou ter sido, em 2012, Figura do Ano na área da Reabilitação Oral nos Prémios Saúde Oral?

Significou muito porque não é uma área que lecione diretamente na faculdade, mas a que me dedico clinicamente com alma e coração. Tratou-se de um reconhecimento por parte dos meus pares, o que é gratificante. Todos nós, independentemente das nossas áreas e dos caminhos profissionais, por mais que gostemos daquilo que fazemos, por mais que nos empenhemos, valorizamos estímulos positivos. O prémio vale essencialmente por isso. Não é uma questão de vaidade, é um estímulo e uma responsabilidade acrescida para continuar e passar o testemunho aos mais jovens.

Profissionalmente, olhando para trás, haveria alguma coisa que mudasse?

Hoje em dia teria oportunidade de fazer muito mais formação do que aquela que fiz. Quando acabei o curso, faz precisamente 25 anos este ano, não havia a oferta pós-graduada que existe hoje. Por isso era muito mais difícil evoluir, tínhamos de fazer muita coisa em regime quase autodidata. Por outro lado, a nível académico, tentaria terminar o meu doutoramento mais cedo. Por vezes protelamos etapas crucias da nossa vida em prol de outras prioridades de forma pouco racional. Para além disto não mudaria muito mais, sinto-me muito confortável com o meu passado e espero sentir-me ainda mais com o meu futuro.

Está a terminar o projeto da construção de uma clínica de raiz em Aveiro…

Sim, faz parte da minha evolução e sonho profissional. Já há muito tempo que tinha a ideia de criar um projeto de clínica privada diferente, algo pensado de raiz. Pensei que a melhor forma de otimizar estes 25 anos de experiência, assim como todo o potencial da equipa que comigo trabalha (13 pessoas neste momento) bem como os recursos tecnológicos e científicos que existem à nossa disposição, seria contruir algo de raiz, em que cada centímetro fosse pensado para determinada funcionalidade em prol do exercício da profissão, do bem-estar dos pacientes, dos profissionais e da qualidade global do trabalho prestado. Mais do que uma clínica será a ‘nossa casa’, onde vamos passar a conviver e a trabalhar de forma ainda mais eficaz e estimulante do que fizemos até hoje. É um projeto que está quase terminado e que tem uma característica particular: a base da estrutura do edifício é contruída a partir do desenho de um dente molar e é feita com materiais que, vendo bem, hoje também usamos na medicina dentária. Tem caracter próprio e solidez, aspetos inerentes à mensagem que queremos passar em termos de postura profissional.

Que balanço faz destes 25 anos?

Muito positivo. Se voltasse atrás escolheria novamente a Medicina Dentária. Gosto muito daquilo que faço, conheci muitas pessoas excecionais, quer do ponto de vista profissional, quer humano. Tive amarguras, desafios, conquistas, desilusões, ri e chorei, enfim, sentimentos que ficam para a vida e que nos fazem crescer e sentir vivos. Penso que consegui, tanto quanto possível, criar laços e dinâmicas nas pessoas que comigo trabalharam. Por mais que cientificamente as coisas evoluam, por mais que possamos construir edifícios arquitetonicamente bonitos, estar em salas de congresso espetaculares, fazer apresentações multimédia bonitas, no fundo o que conta são as pessoas, nomeadamente na forma como as sentimos e como as fazemos sentir.

Joao Carlos Ramos - FMUC - Saúde Oral

E que retrato traça da evolução da Medicina Dentária ao longo destes 25 anos?

Para começar, a acessibilidade ao conhecimento melhorou imenso de uma forma global. Falando especificamente da Medicina Dentária, posso destacar a parte da evolução relacionada com os materiais, com o diagnóstico, a imagiologia, as técnicas de CAD-CAM e as técnicas de impressão 3D, que fazem e vão fazer parte do nosso quotidiano. Penso que o mais importante, contudo, foi a tomada de consciência real de que tratamos seres humanos e não dentes e bocas. Passámos a olhar para o paciente como um todo, de forma holística. A pessoa tem idiossincrasias próprias e não pode ser tratada de forma estereotipada. Temos de individualizar os tratamentos à pessoa que temos à nossa frente, sendo que a sua condição física-psico-social condiciona o sucesso do nosso tratamento e vice-versa. Contudo esta abordagem contemporânea continua a ser um desafio paradoxal e negativamente condicionado por alguns padrões sociais atuais relacionados com procura do bom, de forma ultrarrápida e a baixo custo. E isto não é compatível. O que é bom exige muitas vezes tempo, dedicação e tem custos compatíveis. Enquanto as pessoas não perceberem isto vão continuar a ter insucessos, os pacientes vão continuar a ter desilusões, pelo menos aqueles que tiverem padrões de exigência. Para ter sucesso é necessário tempo para formação, para prevenção, para diagnosticar e planear, para construir e reavaliar. Tempo para investir no relacionamento com os pacientes, conhecendo-os e educando-os para a Medicina Dentária. Isto já é percebido, mas apenas por uma minoria dos pacientes, que são aqueles que irão realmente valorizar aquilo que fazemos.

Implementa estas ideias na sua prática clínica diária?

Tanto quanto possível porque ainda nem todos os pacientes entendem ou estão dispostos a ir por esta via. Com o tempo acredito que a situação vai melhorar. Os pacientes que se identificam com a nossa forma de estar e com a nossa personalidade vão ficando connosco. Aqueles que acham que isso não é importante vão embora. Vamos fazendo quase que uma seleção natural dos pacientes. Tenho pessoas que são meus pacientes há 25 anos. Alguns tratei-os enquanto crianças e já estou a tratar os filhos. Lembro-me, por exemplo, de uma menina de 12 anos que tratei em 96/97, na faculdade. Um caso em que aparentemente um incisivo central estaria perdido. Tinham-lhe dito que tinha de ser extraído e a menina estava a chorar porque não queria perder o dente e andar desdentada. Empenhei-me em tentar encontrar uma solução conservadora para algo complexo para a altura. Acabámos por implementar uma solução terapêutica que manteve o dente e essa menina, que hoje tem 32 anos, veio recentemente a uma consulta de controlo comigo mantendo o seu dente orgulhosamente e o seu sorriso.

Quem foram as pessoas na Medicina Dentária que o marcaram?

Uma das pessoas que mais me marcou foi o fundador da medicina dentária nesta faculdade, o Professor João Luís Maló de Abreu. Foi uma referência para mim, como homem e profissional. Dentro do panorama internacional, a pessoa que mais precocemente admirei pelo seu trabalho, dentro da dentisteria, foi realmente o professor Luís Narciso Baratieri. Por último, como não poderia deixar de ser, pelo que mudou na Medicina Dentária contemporânea, o professor Per-Ingvar Brånemark.

A investigação também é uma parte importante na sua vida profissional…

Sim, é um desafio diferente do de ensinar e do de tratar um paciente, mas que nos permite ensinar melhor os nossos alunos e tratar melhor os nossos pacientes. É um estímulo intelectual, onde somos chamados a resolver problemas e a encontrar soluções que nos obrigam a fazer uso máximo das nossas capacidades e a interagir com outras áreas do conhecimento, como a biologia, química, física, diversas engenharias, etc. Tem essa parte muito revigorante e atraente. Por vezes efetuamos procedimentos clínicos, mas não conseguimos ver as bases biológicas, estruturais e fisiológicas que os sustentam. Quando me sento ao microscópio e vejo uma interface restauradora com biomateriais ampliada milhares de vezes tenho uma visão que não tenho na boca e consigo perceber outra realidade. Na investigação que fazemos procuramos partir de um problema, ou seja, que a investigação possa dar um contributo, ainda que muito pequeno, na resolução de um problema que afeta os pacientes e preocupa os profissionais.

Não advogo que se faça muita investigação que apenas sirva para progressão na carreira académica ou para cumprir métricas de avaliação das universidades, e que nunca será útil para o bem-estar da sociedade. Podemos e devemos conjugar todos estes objetivos. No nosso caso já realizámos trabalhos com diversas Faculdades Portuguesas e Estrangeiras da nossa área, bem como outras instituições fora do âmbito direto da Medicina Dentária como o IBILI, o IPN, a Universidade de Aveiro (Dep. De Engenharia de materiais, CICECO, instituto de telecomunicações), a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Medicina Veterinária), Faculdade de Engenharia da Universidade de Coimbra. É muito gratificante para todos e acaba por valorizar a própria medicina dentária, permitindo ter resultados que de forma isolada não conseguiríamos ter.

Entre os vários trabalhos de investigação em que participou ao longo destes anos houve algum que o tenha marcado?

Já participei em mais de 55 trabalhos, mas o que mais me marcou, por razões óbvias, foi o que deu origem à minha tese de doutoramento sobre tratamentos pulpares conservadores. Sempre defendemos uma medicina dentária individualizada, que seja preventiva e conservadora. Em termos de biologia e fisiologia pulpar seguimos o mesmo objetivo. Queremos manter os dentes naturais, a sua vitalidade pulpar ou mesmo regenerá-la quando perdida.

Olhando agora para o estado da Medicina Dentária no nosso país, considera que temos um número excessivo de médicos dentistas?

Poderemos até não ter médicos dentistas a mais. Aquilo que temos é uma população com capacidade condicionada de acesso aos serviços de medicina dentária privados de qualidade e/ou com deficit de priorização e valorização da sua saúde oral. Neste contexto, creio que o número de médicos dentistas é excessivo, o que é lamentável porque estamos a despender recursos nacionais para a formação de profissionais qualificados numa determinada área e depois cedemos “gratuitamente” esses ativos a outros países. Obviamente que para os nossos colegas que emigram é bom ter trabalho, é bom haver essa opção. Existe ainda um outro aspeto positivo: estão a ajudar a mudar a imagem do país. As pessoas vão perceber rapidamente que o perfil do emigrante português é o de profissional de qualidade. Já não é apenas um trabalhador nato e honesto, é honesto e qualificado e a medicina dentária é um dos nossos embaixadores nessa matéria. Mas continuo a dizer que é com muita pena que vejo pessoas jovens, qualificadas, com ideias e projetos, a terem de emigrar.

Na sua opinião, o que pode ser feito para solucionar este problema?

É preciso dignificar mais a Medicina Dentária, ou seja, torná-la uma prioridade para a população portuguesa. Costuma dizer-se que há muita concorrência na Medicina Dentária, referindo-se ao excesso de profissionais, mas para mim pode não ser bem assim. Os meus concorrentes não são os meus colegas, mas os stands de automóveis, as agências de viagem, as lojas de vestuário porque é aí que as pessoas vão despender de forma exagerada os parcos recursos económicos que têm, que lhes fazem falta para aplicar na educação ou na saúde. Temos, por isso, de dignificar a Medicina Dentária para que as pessoas a entendam como uma prioridade e não como uma necessidade de último recurso. Na minha perspetiva temos de combater esta inversão de valores de forma inteligente e sustentável.

Departamento de Medicina Dentária da Universidade de Coimbra

E planos para 2017?

Vai realizar-se brevemente uma cerimónia de comemoração, durante a nossa Reunião Anual em Coimbra, onde é oferecida uma medalha da faculdade a todos os licenciados há 25 anos. Espero ter o privilégio de estar, nessa altura, com todos os meus colegas de curso. É um momento muito importante porque guardo boas memórias dos meus tempos de estudante. Vou ainda realizar um sonho de 25 anos, que é a construção de uma clínica de raiz, em Aveiro, que será inaugurada ainda este ano. Muito recentemente fui incumbido de ficar à frente de uma sociedade científica, que é a Sociedade Portuguesa de Estética Dentária. Este é um dos maiores desafios que tenho para os próximos dois anos. Pegar numa sociedade que neste momento já conquistou o seu espaço próprio, que já tem a sua identidade e fazê-la crescer para outros patamares, de maior impacto, visibilidade e abrangência. Também na faculdade temos uma série de projetos, como a criação de uma pós-graduação, dentro de uma dinâmica de crescimento e rentabilização de recursos humanos e tecnológicos.

E depois de 2017, o que se segue?

Continuar a sonhar, a “construir” e a desfrutar no âmbito profissional… Do ponto de vista pessoal tenho cinco filhos, estou a contruir a minha própria clínica, já editei dois livros e uma enciclopédia digital, já plantei várias árvores, criei laços e amigos para a vida. Aquilo que me falta fazer, e que tenho vindo a adiar há muitos anos, é dedicar-me àquilo que era o meu sonho de infância, ou seja, a uma atividade náutica. Ainda não desisti do sonho de um dia ter um barco e poder ter os meus momentos, a desfrutar da ria e do mar sozinho ou, preferencialmente, com familiares e amigos.