Opinião

Qual o futuro da Ortodontia?

Qual o futuro da Ortodontia?

Recentemente, o consultor e coach inglês Chris Barrow escreveu sobre o futuro da Ortodontia, nomeadamente o papel da tecnologia, o envelhecimento da população e a regulamentação. E será que os médicos dentistas estão preparados para o aparecimento da realidade aumentada?

Um dos meus heróis da blogosfera, Seth Godin, afirmou uma vez: “Não escrevas sobre aquilo que sabes, escreve sobre o que te fascina”. No entanto, muitos dos trabalhos escritos que nos solicitam incidem sobre o primeiro ponto e visam mostrar aos leitores o quanto sabemos sobre um determinado tema.

Na edição deste ano da conferência da British Orthodontic Society irei falar sobre o marketing para a prática clínica em Ortodontia, o que funciona, o que não funciona e como obter o melhor retorno sobre o investimento no marketing. Será fácil recriar este conteúdo aqui para que todos os que não possam assistir obtenham a informação – mas tenho o diabo em mim esta manhã, a meio de um projeto de uma semana que tenho sobre a secretária e quero fazer algo diferente.

Por isso decidi escrever sobre o que me fascina no mundo da Ortodontia neste momento, na perspetiva de ajudar os clientes a conseguir negócios de sucesso e manter um equilíbrio aceitável entre as suas vidas pessoais e profissionais. Apresento aqui o Top 10 das minhas reflexões atuais:

  1. Questiono-me sobre por quanto mais tempo se manterão os valores da boa vontade nos seus elevados níveis históricos. Os números são surpreendentes e apenas um investidor institucional a especular sobre um retorno a quatro anos ou uma companhia de seguros a tentar a venda cruzada dos seus produtos e serviços podem realmente “engolir” os loucos múltiplos de lucro apresentados atualmente.
  1. Questiono-me sobre quantos diretores com idade superior a 50 anos se vão manter em exercício por muito mais tempo. Está a tornar-se mais difícil gerir um negócio na área dentária e, cada ano, requer mais energia para se manter a par de tudo o que se passa no negócio e na profissão. A justaposição de uma população de proprietários envelhecida e da boa vontade acima referida cria o cenário perfeito para partir. Agora é o momento certo para partir.
  1. Questiono-me sobre quem comprará as clínicas à venda. Será que as instituições ainda estão preparadas para especular na situação macro-económica atual no Reino Unido? Estarão os jovens dentistas (com ou sem recursos monetários familiares) preparados para uma corrida ao ouro que começa a assemelhar-se a história e não a negócios atuais? Como dizia Sir James Goldsmith, “se consegue ver o comboio é muito tarde para subir”.
  1. Questiono-me quando é que as repercussões da regulamentação irão atingir os médicos dentistas generalistas e especialistas que têm praticado uma ortodontia de curta-duração como pãezinhos quentes. Existem já os primeiros sinais de pacientes cujas expectativas foram elevadas acima da capacidade de resposta de um sistema ou clínico – pacientes que estão desiludidos, esclarecidos e motivados para contestar na justiça. Os dentistas deviam estar avisados deste ambiente ou por aqueles que os formam.
  1. Questiono-me sobre o número de sistemas que aparecerão no mercado anunciando “mais barato” ou mais “mais rápido” como única proposta de venda. Citando novamente Godin: o maior perigo numa corrida até ao fundo é vencê-la. Já assistimos ao declínio espetacular de alguns negócios dentários que propunham tratamentos de ortodontia com elevados descontos (estive ligado à recuperação tardia de outros que seguiram a mesma ilusão).
  1. Questiono-me por quanto tempo poderão os sócios em Ortodontia levar uma vida decente. Com a erosão das margens de lucro nos procedimentos dentários e o aumento dos profissionais na área dentária, a pressão para a diminuição da remuneração dos associados é cada vez maior. Será a Ortodontia ainda uma opção de carreira viável?
  1. Questiono-me sobre a forma como a tecnologia irá afetar a prestação de serviços dentários no futuro, bem como a experiência dos pacientes e os sistemas de negócio. Dentisteria digital tornou-se uma expressão tendência nos últimos anos. Com a Apple a lançar o iOS 11 e a introduzir a ARKit (realidade aumentada nos iPhones e iPads), o universo do e-commerce e das redes sociais está prestes a iniciar uma revolução de realidade aumentada que será tão determinante a nível cultural como foram as revoluções industrial, tecnológica e de informação dos últimos dois séculos. A tecnologia irá afetar a prestação de serviços em Ortodontia, assim como a experiência do paciente.
  1. Questiono-me sobre que conjunto de competências será exigido ao gestor de negócio/clínica nos próximos cinco anos. Com a introdução de responsabilidades em análise financeira, branding, marketing, experiência do utilizador, coordenação de tratamentos, administração, conformidade legal, operacional e recursos humanos, será que o futuro gestor deve ter um nível de MBA?
  1. Questiono-me como se irão desenvolver as equipas de dentária em Ortodontia. Será ainda possível contratar telefonistas, rececionistas, enfermeiras ou pessoal administrative a valores relativamente baixos, partindo do princípio de que o pessoal de apoio é substituível, ou será necessário mudar de perpectiva? Encarar as pessoas como o trunfo no balanço final e não apenas uma despesa geral na folha de lucros e perdas? Irá o diretor esclarecido aperceber-se de que é o serviço ao cliente que o diferencia pela positiva da concorrência e das guerras de preços? E que o serviço ao cliente requer um investimento significativo em pessoal?
  1. Por fim, questiono-mo sobre como serão os nossos pacientes daqui a cinco anos. Vivemos numa época em que não é apenas a realidade aumentada que vai mudar o cenário geral. Prepare-se para a tecnologia portátil, os têxteis inteligentes, os cuidados de saúde baseados na previsão (e não na prevenção). Os nossos pacientes vivem, em médica, mais 25 anos do que os seus avós. É um bónus de 25 anos nos quais eles exploram o mundo à sua volta e no interior de si próprios. Este período extra irá prolongar-se. Algumas previsões indicam que a geração atual de crianças irá viver bem até aos 135 anos. A saúde e aparência dentária são parte dessa longevidade e a profissão terá de adaptar-se e adotar novas técnicas. Não é fascinante tudo isto? Mal posso esperar para ver o que vai acontecer, quem serão os vencedores e o que farão para vencer.