Opinião

Odontofobia – como afeta a sua clínica e como a tratar?

Odontofobia - como afeta a sua clínica e como a tratar?

Mesmo sendo médico dentista, a grande razão por me ter dedicado ao NeuroMarketing e à psicologia de consumo foi o MEDO. O medo e a ansiedade são os principais entraves à procura de serviços de Medicina Dentária, mesmo quando motivos financeiros são dados como desculpa1, culminando numa fama totalmente imerecida para nós médicos dentistas. E se, nesta profissão, temos de ser um híbrido de artista, engenheiro e médico, temos igualmente de ser psicólogos.

Muitos fatores estão diretamente relacionados com a “Odontofobia”, mas isso não é novidade, a literatura científica mais recente sugere uma componente genética e não apenas ambiental2 para este medo. Assim que entra na clínica, os centros cerebrais de sobrevivência e medo, amígdala, hipocampo e partes do cortex pré-frontal estão ativos. O paciente já se encontra condicionado e atento a todas as pistas negativas do espaço, melhorando ou piorando o seu estado de espírito. Um simples quadro torto ou mancha na parede irá afetar o seu julgamento. A má gestão comportamental destes pacientes afeta não apenas a faturação da clínica, mas mais importante, a perceção que o paciente tem da mesma e dos serviços prestados.

O medo acaba por ser um estimulante negativo ou positivo. Num casino, o ambiente está desenhado para o medo diminuir a aversão à perda pela possibilidade dos ganhos; por outro lado numa clínica dentária, por muito otimizado que o ambiente seja, o medo aumenta a aversão ao risco3. Estes dados implicam que o médico dentista, todo o seu staff e clínica se equipem de técnicas e ferramentas que atenuem ao máximo estes comportamentos. Não raras vezes é essa a lacuna que permite que uns consigam fechar consideravelmente mais planos de tratamento que outros colegas.

Tentar controlar um paciente “odontofóbico” é per si uma arte. Existem programas informáticos dedicados à gestão da odontofobia4, sedação consciente, acupuntura1,5 e muitas mais técnicas. Uma que gosto de destacar e é relativamente desconhecida e subutilizada é a Hipnose Clínica. As principais vantagens consistem em ser uma técnica não-invasiva6, relativamente barata e com potencial de poder ser utilizada desde um simples relaxamento até anestesia completa para cirurgia oral7.

E o colega pergunta: terei de andar com um pêndulo a hipnotizar os meus pacientes? Não! E os meus pacientes poderão contar-me segredos que não quero nem deveria saber? Também não! Não se trata de deixarmos os pacientes “firmes e hirtos que nem uma barra de ferro”. Há uma diferença entre Hipnose de Palco e Hipnose Clínica. A Hipnoterapia está academicamente acreditada como uma terapia útil e só não está mais disseminada na Medicina por todos os mitos criados em seu redor e também por falta de conhecimento dos médicos7. Em termos de patient satisfaction, que é a minha área de foco académico, estudos mostram que cerca de 90% dos pacientes encaram positivamente a hipnose5 e 75% apresentam níveis de ansiedade significativamente inferiores relativamente a pacientes não sujeitos a esta terapia.

Joana Crispim, uma hipnoterapeuta com que me cruzei profissionalmente e que tem vindo a colaborar com clínicas dentárias, está em vias de desenvolver formas que permitirão o acesso a hipnoterapia virtualmente em qualquer clínica no Mundo. Cada clínica e cada profissional são únicos, cada um comunica como melhor sabe e consegue, mas o fundamental é que se entenda que não estamos sozinhos no Mundo, existem outras terapias que em equipa connosco podem fazer a diferença no conforto e satisfação dos nossos pacientes.

  1. Appukuttan, D. Strategies to manage patients with dental anxiety and dental phobia: literature review. Clin. Cosmet. Investig. Dent. 35 (2016). doi:10.2147/CCIDE.S63626
  2. Randall, C. L. et al. Toward a genetic understanding of dental fear: evidence of heritability. Community Dent. Oral Epidemiol. 45, 66–73 (2017).
  3. Lee, C. J. & Andrade, E. B. Fear, excitement, and financial risk-taking. Cogn. Emot. 29, 178–187 (2015).
  4. M. Tellez et al. Computerized Tool to Manage Dental Anxiety: A Randomized Clinical Trial. J. Dent. Res. 94, 174S–180S (2015).
  5. Glaesmer, H., Geupel, H. & Haak, R. A controlled trial on the effect of hypnosis on dental anxiety in tooth removal patients. Patient Educ. Couns. 98, 1112–1115
  6. Seung-Hwan Ong, Sung-Jo Lee, In-Woo Cho, and Jung-Chul Park2 & *. Use of hypnosis in dentistry for improving patient satisfaction: as a means of non-phamaceutical approach. J Dent Rehabil Appl Sci 33, 169–177 (2017).
  7. Allison, N. Hypnosis in modern dentistry: Challenging misconceptions. Fac. Dent. J. 6, 172–175 (2015).