Opinião

Medos & Tretas

O panorama socioprofissional do exercício de Medicina Dentária em Portugal continua de rastos e só pode piorar até atingir o inimaginável há duas ou três décadas. Pode nem parecer assim tão mal e atribuir-se tal afirmação a um carácter mais pessimista e derrotista, mas se pararmos um pouco para refletir acerca de múltiplos e pequenos mas significativos episódios chegaremos a essa conclusão incontestável.

A publicidade a serviços de Medicina Dentária perdeu qualquer réstia de vergonha que lhe poderia restar. Não importa o local onde é feita, não importa o seu grau de veracidade, não importa quanto se rebaixa a profissão, não importa quem está por trás. É feita de modo generalizado, tanto pela pequena clínica que aspira a ser grande, como pela grande que receia ter de passar a ser pequena, pelo anónimo Médico Dentista, como pelo conhecido e reputado, pelo simples e honrado prestador de serviços como pelo docente de faculdade, pelo desligado da política como pelo membro daquela organização socioprofissional. Chega-se ao ponto de pagar uma centenas de euros para ser admitido a uma espécie de concurso onde supostamente se avalia qual a melhor clínica do país (a melhor de entre aquelas que se prestam ao lamentável circo de participar em tal iniciativa. O que se devem rebolar a rir os organizadores e angariadores destes milhares de euros).

Sim, nas redes sociais fala-se disto embora a medo. O medo de represálias de alguma espécie, medo de ser olhado de lado, medo de não conseguir calcular com rigor as consequências. Fora desses meios simplesmente não se fala abertamente dos problemas. Fazem-se congressos atrás de congressos que se tornam não mais que um desfilar de vaidades, uma encenação que tudo está bem. E a nossa Ordem, estrutura única que representa os Médicos Dentistas portugueses, o que faz? Alinha nesse marasmo, na hipocrisia de querer apresentar uma situação equilibrada e funcional, no orgulho que lhe impede de clamar aos quatro ventos quão mal está a situação dos Médicos Dentistas, quão difícil é instalar um consultório, quão difícil está conseguir encontrar-se uma colocação numa clínica já existente, quão impossível é sobreviver à custa de convenções e seguradoras desavergonhadas! Exigem-se campanhas públicas fortes e denunciadoras!

A imagem que subsiste junto da população portuguesa não corresponde minimamente à realidade. Continuam a observar-se reações que demonstram não apenas uma profunda ignorância, mas igualmente uma assustadora regressão no modo como a nossa profissão é encarada pela população. O desrespeito e o desprestígio que se manifestam nas tais redes sociais eram previsíveis. Fizeram-nos a cama onde nos temos de deitar….

Há poucas semanas, penso que por ocasião do assinalar-se o Dia Internacional da Mulher, assisti na televisão a uma reportagem em que uma mãe, feliz mas cansada da vida matreira que a obrigou a requalificar-se como motorista de pesados e como tal a obriga a longos períodos fora de sua casa, revelava orgulhosa que esses sacrifícios os fazia por amor aos seus dois filhos, a mais velha estando a tirar o curso de Medicina Dentária. Mas alguém imagina quantas famílias deste país se esforçam e sacrificam para proporcionar aos seus filhos um curso sem saída profissional? Mas alguém acha sinceramente que se soubessem disso tomariam essa opção?! Neste país desgraçado, o Estado não assume a sua função reguladora no que é importante. Ou seja, regula os Médicos Dentistas quando estes se encontram na selva que é o seu dia-a-dia, mas regular o problema a montante, diminuindo o número de formados, isso não! Blasfémia! Isso seria castrar as escolhas individuais dos candidatos ao Ensino Superior! Tretas! Seria sim diminuir a estatística dos números de vagas no Ensino Superior, seria diminuir a rentabilidade do Estado às custas das faculdades privadas e das famílias portuguesas, seria fazer pior figura perante as OCDE´s e comissões europeias que exigem maior percentagem de licenciados em Portugal, pouco lhes importando se em áreas com empregabilidade ou não! Temos um Estado desonesto e temos tido, há demasiado tempo, uma OMD frouxa, fraca, incapaz de atirar a pedra ao charco! As suas opiniões, as suas denúncias, as suas recomendações não devem ser dirigidas aos Médicos Dentistas, mas sim à generalidade da população portuguesa e através desta, ao Estado! Sem medos e sem tretas!