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Digital Smile Design: “Um verdadeiro ‘mind changer’”

sorriso

Quem ‘adere’ ao Digital Smile Design não volta atrás. A medicina dentária incorpora cada vez mais uma vertente virtual e digital, sendo o DSD a primeira porta de acesso para esta nova tendência. Daí a importância de entender como desenhar sorrisos e de mostrar aos pacientes como pode mudar as suas vidas.

O Digital Smile Design (DSD) ou o Desenho Digital do Sorriso está a revolucionar a Medicina Dentária. Quem o diz é Miguel Stanley, diretor clínico da White Clinic, em Miraflores: “considero que o Christian Coachman é das pessoas mais inteligentes do mundo da medicina dentária, com uma ética de trabalho fora de série. Não apenas o produto que criou, mas a visão dele e aquilo que vem implementando desde o Digital Smile Design estão a revolucionar o mundo da medicina dentária porque estão a dar ferramentas aos médicos dentistas para, finalmente, compreenderem como é que podem solucionar problemas complexos com tecnologia digital”.

Daí o médico dentista, como presidente do comité de comunicação da Digital Dentistry Society, concluir que “o mundo da medicina dentária tende para a vertente virtual e digital” e, neste sentido, o DSD é “a primeira porta de acesso para esta nova tendência: entender como desenhar sorrisos e mostrar aos pacientes como isto pode mudar a vida deles, pois sem este conceito de arquitetura, a engenharia é difícil de ser alcançada”.

Para vários médicos dentistas, como João Mouzinho da Molar Clinic, no Porto, este conceito já faz parte do seu dia-dia e “já não é possível trabalhar sem ele”. Longe vão os tempos em que começava os seus casos sem ter um verdadeiro planeamento facialmente guiado, “o que me obrigava muitas vezes a alterar os planos de tratamento a meio da minha performance clínica. Frequentemente alcançava um excelente resultado clínico, mas que não se enquadrava com a face do paciente”. Por isso, o médico dentista defende que este conceito permite “que os casos sejam muito mais bem planeados, uma vez que nos obriga a ter em conta uma série de parâmetros antes de iniciar o caso. E, assim que o terminamos, fazemos um controlo de qualidade para perceber se a performance clínica digital foi exatamente igual ao nosso planeamento, o que aumenta muito a percentagem de sucesso dos nossos tratamentos”.

João Mouzinho

O DSD é, desta forma, “um verdadeiro ‘mind changer’ na maneira de planear e comunicar na Medicina Dentária”. João Mouzinho acredita de tal modo nesta filosofia que desenhou toda a sua clínica “à volta deste conceito de maneira a maximizar o potencial que podemos retirar do desenho digital do sorriso, fazendo parte do dia-a-dia da nossa equipa”.

Porém, Miguel Stanley e João Mouzinho não são casos isolados. Também Miguel Lima já abraçou o DSD, mais precisamente há quatro anos quando comprou um CAD/CAM, nomeadamente um sistema CEREC. “Daí até começar a usar o software smile designer pro foi um passo que se desenvolveu com naturalidade”, conta o médico dentista da clínica S. Gonçalo, em Ponta Delgada, revelando que “foi-me apresentado pela primeira vez por um amigo norte-americano, Eddie Corrales”.

Uma filosofia de trabalho

Mas o que é, afinal, o Desenho Digital do Sorriso? Como dizia o próprio Christian Coachman, criador do conceito, numa entrevista à SAÚDE ORAL, o DSD “é uma filosofia de trabalho que envolve uma série de novos protocolos, sendo que estes implicam muita tecnologia, nomeadamente vários software que foram desenvolvidos para ajudar o médico dentista em quatro fatores básicos”. O primeiro, segundo o entrevistado, diz respeito ao facto de os médicos dentistas “poderem tornar-se melhores designers de sorrisos através de um protocolo de integração dento-facial e de análise desse sorriso integrado com a fase” e, o segundo, ao facto de poderem “planear melhor os casos de forma interdisciplinar, precisamente através de um protocolo de comunicação interdisciplinar”. Já o terceiro fator é no âmbito de auxiliar o médico dentista “a criar uma estratégia de comunicação com o paciente, nomeadamente para o motivar e educar, assim como para agregar valor ao seu produto, e logicamente aumentar o grau de aceitação dos planos de tratamento através desta abordagem, à qual chamamos de odontologia digital”. E, por fim, o quarto é relativo, como apontava Christian Coachman, a “transformar o projeto, assim que é criado, num tratamento previsível através de protocolos digitais, ou seja, através da utilização de software que geram previsibilidade e eficiência no tratamento do paciente”.

 Criar sorrisos reais

Miguel Lima lida com estes fatores no seu dia-a-dia, sendo que no seu caso utiliza o smile designer pro “com o intuito de me ajudar a desenhar coroas na CEREC e, hoje em dia, não me vejo a fazer trabalhos anteriores já sem esse tipo de ferramenta, pois a principal mudança que senti na minha prática clínica foi tornar os meus trabalhos muito mais previsíveis”.

Não obstante, hoje em dia os clínicos dispõem de vários equipamentos que os ajudam a tornar mais simples o desenho digital do sorriso, nomeadamente “câmaras fotográficas DSLR, câmara de vídeo, estúdio de fotografia e vídeo com iluminação apropriada, TAC tipo CBCT, scanner intraoral 3D, impressora 3D e software de planeamento digital em 2D e 3D”, como elucida João Mouzinho. Mas o facto de não terem estes equipamentos não é impeditivo de adotarem este conceito na sua prática diária. “Quando começámos em 2012 apenas tínhamos à disposição um smartphone e uma aplicação para Ipad e já nessa altura conseguíamos fazer todo o tipo de desenho digital do sorriso”, confidencia o médico dentista.

O certo é que os procedimentos que o DSD implicam são, como indica Miguel Stanley, simples. Primeiro é necessário “ter um paciente que queira fazer um tratamento ‘full mouth’, ou seja, o Digital Smile Design só funciona para quem precisa e quer fazer um tratamento do seu sorriso completo e com uma forte componente estética, mínimo de 10 a 12 dentes”. Por esta razão, segundo o médico dentista, “é importante que o paciente entenda os custos que este tipo de tratamento aporta”. Seguidamente é preciso ter um scanner intraoral: “embora também possa ser feito com impressões convencionais, o scanner é notoriamente mais vantajoso”, uma vez que oferece um maior conforto ao médico dentista, pela comodidade do procedimento, e ao próprio paciente, já que os sabores do material de impressão não estão presentes e as sensações de vómito são eliminadas. Contudo, a questão do tempo merece, igualmente, destaque, dado que o indivíduo passa menos tempo na cadeira e o clínico elimina o tempo perdido na preparação do material. Também a infeção cruzada é evitada desde que o profissional tome todas as precauções necessárias.

Após a utilização do scanner intraoral, Miguel Stanley utiliza “um smartphone para realizar alguns vídeos, câmaras específicas para tirar fotografias e um computador com o software adequado e uma conta aberta do Digital Smile Design. Passado poucos dias vem, por correio, a goteira já com o novo sorriso e o modelo 3D do futuro sorriso. Depois basta injetar resina bisacrílica na goteira, retirar os excessos, tirar novas fotografias e vídeos de acordo com alguns parâmetros específicos e mostrar ao paciente”.

Miguel Stanley

O diretor clínico da White Clinic sintetiza que o DSD faz toda a diferença na sua prática diária, pois “permite, de uma forma rápida e simples, criar sorrisos reais que o paciente pode ver na boca, através de fotografias e vídeos, e que têm um impacto significativamente diferente ao do mock-up nos modelos de estudo. Para uma clínica como a nossa, que se dedica a contruir sorrisos de acordo com a filosofia nohalfsmilesÒ, esta técnica vem auxiliar os nossos pacientes a compreender a visão que nós queremos”.

Prós e contras

A grande vantagem do DSD reside “na planificação e na comunicação entre o médico e o paciente”, como reitera Miguel Lima. Contudo, não é um conceito isento de desvantagens e, neste sentido, o médico dentista aponta que o principal inconveniente “depende de nós próprios, já que temos de ser realistas e não prometer algo impossível”.

João Mouzinho destaca, no campo dos benefícios, quando o conceito é utilizado em todas as suas vertentes, “a facilidade de diagnóstico dos casos clínicos através de uma avaliação estética e estrutural intra e extraoral e o facto de melhorar a comunicação entre todos os membros da equipa, assim como melhorar a performance do clínico porque o obriga a planear todos os casos com muito rigor e a cumprir o protocolo que desenhou através de um processo com tecnologia digital”. À semelhança de Miguel Lima, João Mouzinho indica o “aumento da efetividade da comunicação”, mas também “a aceitação dos orçamentos por parte dos pacientes”

Para o médico dentista, o maior inconveniente da técnica é “ter de gastar mais tempo no desenho digital do sorriso e no planeamento, mas que, ao mesmo tempo, me faz ganhar tempo na abordagem clínica porque não há desvios ao planeamento inicial nem alterações de planos a meio dos tratamentos”.

Ainda no campo dos inconvenientes, Miguel Stanley aponta “o custo, o tempo e a curva de aprendizagem necessários para colocar esta técnica em prática. Obviamente que há inúmeros profissionais que tentam pôr em prática sem qualquer apoio, mas não há nada como delegar a responsabilidade a quem realmente entende sobre este assunto e que neste caso é ao grupo DSD”.

Facilitador da comunicação

O Digital Smile Design é recomendado “para qualquer tipo de casos que exija um projeto de sorriso, assim como uma relação interdisciplinar”, declara Christian Coachman, acrescentando que é, igualmente, recomendado “para todos os casos em que se precise de redesenhar o sorriso do paciente”. O DSD é um facilitador da comunicação, nomeadamente entre os vários profissionais envolvidos, como já referido. “O desenho digital do sorriso, aliado ao meu protocolo com modelos de estudo, leva à discussão de todos os casos clínicos estéticos entre todos os envolvidos no processo de reabilitação. Todos juntos analisamos e detetamos possíveis limitações do caso clínico e planeamos como contornar essas mesmas limitações, sempre que possível e de uma forma previsível”, explica Miguel Lima.

Christian Coachman

O médico dentista confidencia mesmo que, para si, os casos mais desafiantes são aqueles que “envolvem prognatismos ou mordidas cruzadas, uma vez que com o smile designer pro desenhamos em 2D e torna-se fácil desenhar um sorriso bonito, mas irrealista, pois não temos a profundidade de 3D que um prognatismo exige. Daí seguir um protocolo com modelos e RX e vídeos para complementar essa mesma lacuna”.

Muita previsibilidade

Previsibilidade é uma das palavras de ordem no respeitante ao Desenho Digital do Sorriso e, assim sendo, a utilização do protocolo completo do DSD, como salienta Christian Coachman, “gera muita previsibilidade e encurta o tempo de tratamento porque consegue-se fazer vários procedimentos concomitantes ao mesmo tempo”. Através da tecnologia “gera-se muita precisão, o que dá origem a uma recuperação mais rápida, a menos dor e a mais conforto, tudo isto são vantagens que geram um impacto muito grande no paciente”, explica o médico dentista, concluindo que, “além disso há a parte do marketing, em si, porque o paciente vê os resultados da tecnologia, sente-se valorizado e acaba por valorizar ainda mais o trabalho do profissional”.

 

Passo a passo

De acordo com João Mouzinho, os procedimentos principais baseiam-se em quatro momentos:

1) Entrevista;

2) Design;

3) Apresentação

4) Performance

1) Entrevista – criado o chamado clone digital, ou seja, a partir de fotografias, vídeos, TAC tipo CBCT, scanner 3D da boca com o scanner intraoral e exame clinico fica-se com ‘uma cópia do paciente’ mesmo depois de ele ter ido embora da clínica. Ou seja, mesmo quando o paciente não está presente podemos planear todo o caso. Isto após lhe termos feito uma entrevista onde podemos descobrir o que ele não gosta no seu sorriso e de que maneira gostaria de o melhorar.

2) Design – corresponde ao ‘desenho’ onde temos os ficheiros .jpg /.mov/.dcm e .stl e conseguimos desenhar todo o caso baseando o nosso planeamento do sorriso numa perspetiva facial muito mais correta. Podemos ter noção de como vai ser o resultado final mesmo antes de começar, assim como os custos de todo o caso. Ou seja, podemos desenhar o sorriso final do paciente.

3) Apresentação – criação um mock up produzido na nossa impressora 3D para que o paciente posso fazer o test drive guiado facilmente do seu sorriso, tal e qual como uma pessoa pode fazer o test drive de um carro de luxo antes mesmo de o comprar.

4) Performance – transformamos todo o nosso planeamento e desenho numa performance digital, quer seja através de cirurgia guiada por computador, facetas cerâmicas produzidas digitalmente, cirurgia gengival com guias cirúrgicas, etc.

 

Odontologia emocional

No DSD, o paciente assume um papel central, sobretudo porque “consegue visualizar em grande qualidade em formato real o antes e o depois. Quem segue o protocolo completo, como eu, e trabalha com o laboratório em Madrid, em que eles enviam as goteiras para fazerem o Digital Smile Design na boca, o paciente fica com fotos e vídeos reais do antes e depois, e isto ajuda-o a compreender a importância do tratamento e a aceitar os custos inerentes ao procedimento”, ressalva Miguel Stanley.

Ora, o paciente ao ter este papel decisivo na construção do seu sorriso faz com que comecemos a entrar no campo da odontologia emocional. “A odontologia emocional, na verdade, gera um impacto fantástico no paciente. Temos casos no mundo inteiro e a reposta é muito positiva. Simplesmente porque através destes protocolos conseguimos que o paciente se torne num coautor do design do seu sorriso. Através da comunicação visual que se gera, ganhámos muito mais confiança, dado que o paciente se sente mais tranquilo porque vê e, em consequência, entende por que motivo o médico dentista está a oferecer aquela solução e com isso sente-se mais confortável em aceitar o plano”, sublinha Christian Coachman.