Opinião

Rui Paiva: os 20 anos da OMD

O direito à indignação e à expressão da minha opinião é algo de que não prescindo. Em democracia e num país livre, esses direitos são inalienáveis e constitucionalmente consagrados. Hoje é um dia em que exerço esses direitos de modo franco e direto como sempre procuro fazer. Vem esta breve introdução a propósito das comemorações dos 20 anos de existência da Ordem dos Médicos Dentistas, um acontecimento atual de fundamentação dúbia e interesse muito relativo. Desde logo coloca-se a questão da justificação de se comemorarem 20 anos. Qual o simbolismo associado aos 20 anos?! Geralmente atribui-se algum significado ao quarto de século, aos 25 anos…

Trata-se de organizar 13 sessões supostamente solenes pelo país fora, carecendo de inscrição prévia, sabendo-se apenas que “o ponto alto é a entrega de um diploma que celebra o reconhecimento do título de médico dentista” pois de acordo com informação divulgada pela organização “o programa será divulgado oportunamente”. Ora, à data em que escrevo este artigo, a primeira sessão já se realizou no Porto, a segunda que se realizará em Vila Real tem as inscrições a fechar em menos de 24 horas e nada se sabe do tal programa. Haverá alguma dissertação por personalidades de relevo? Haverá alguma apresentação de projetos desta direção da OMD? Haverá algum debate acerca de temas fraturantes da Medicina Dentária nacional? Deverei inscrever-me apenas para receber um papel bonito com o meu nome? Mas qual a utilidade desse papel?!

Ingenuamente sempre pensei que apenas às faculdades assistia a prerrogativa de atribuir diplomas atestando o grau profissional que permite exercer determinada profissão. Será que afinal aquele diploma bonito com selo de prata, que me foi passado pela Universidade do Porto há 28 anos e que orgulhosamente mandei encaixilhar é falso?! Terei andado estes anos todos a exercer sem um verdadeiro diploma que ateste a minha qualidade de médico dentista?!

Valeu-me então a distração dos inspetores da Entidade Reguladora da Saúde que não deram conta desse facto… As preocupações legalistas tão frequente e recorrentemente invocadas pela direção da OMD para justificar a sua inoperância em diversos assuntos relativos ao exercício da profissão foram postas de lado nesta ocasião para se montar estas dispendiosas operações de charme. O que justificará o custo astronómico de tal iniciativa? Quanto custará o aluguer de salas nobres em 13 cidades? Quanto custará o trabalho de tipografia, design e embalagem de milhares de diplomas? Quanto custará a deslocação, alojamento e certamente frugal alimentação dos digníssimos membros da OMD que compõe o palco deste circo? Despender-se uma fortuna numa iniciativa inútil e estéril atribuindo um papel atestando um facto previamente reconhecido é irracional e apenas serve um objetivo: está iniciada a campanha eleitoral para as próximas eleições a cargos da OMD.

Estes “encontros com a Ordem” são uma iniciativa oportunista pelo seu timing. Não esqueçamos que no próximo ano deveriam realizar-se eleições para a OMD; o tempo condicional estando aqui a ser utilizado propositadamente pois até agora desconhece-se em absoluto qual o calendário unilateralmente determinado por esta direção da OMD. As últimas eleições realizaram-se em dezembro 2015 tendo sido reeleitos para um mandato de quatro anos, pelo que 2019 seria tempo de novas eleições.

Relembro que o nosso colega Orlando Monteiro Silva é bastonário dos médicos dentistas desde 2001! E estas iniciativas de entregas de diplomas sem valor algum, que não seja a satisfação injustificável de egos pessoais, e a oferta de congressos a preços simbólicos fazem já parte dos planos de reeleição, não do colega Orlando, impedido estatutariamente de se recandidatar, mas de membros da atual direção.

A propósito do preço simbólico da inscrição no próximo congresso anual da OMD, estou curioso em apreciar a gestão logística da expectável avalanche de médicos dentistas inscritos… Melhor seria prever logo um sistema de senhas para atribuir um lugar sentado nas salas de conferência…