Entrevista

“Os desafios da reabilitação oral implanto-suportada encontram-se em três vertentes: planeamento, vertente cirúrgico-prostodôntica e manutenção”

Instituto de Implantologia

Aproveitando a realização da 6ª edição do Implantology and Oral Rehabilitation Congress (IORC) a 6 e 7 de abril em Lisboa, estivemos à conversa com Helena Francisco, que preside a comissão organizadora, e que nos revelou os desafios da edição deste ano.

Quais os grandes objetivos da organização deste ano do IORC?

As cinco edições prévias definiram o Implantology and Oral Rehabilitation Congress (IORC) como um congresso inovador nas áreas da Implantologia e Reabilitação Oral. Tal foi possível não apenas pela presença prévia de oradores com reconhecida excelência clínica, como Dennis Tarnow, Galip Gurel ou Stephen Chu, mas pela apresentação de programas científicos em torno de “hot topics” no contexto da discussão clínica em que foram apresentados. Esta última realidade permitiu tornar o IORC num importante evento de atualização clínica na área da Implantologia a nível nacional. Como já referido pelo seu fundador, o Professor Doutor João Caramês, julgamos que a 6ª edição reúne as condições ideais para consubstanciar o percurso até agora efectuado e superar a adesão observada em edições anteriores. Alargando a participação a “expert opinions” vindos de vários países, assumimos igualmente e em definitivo o inglês como idioma oficial do congresso. A divulgação do IORC em outros congressos internacionais e plataformas educativas de relevo procuraram igualmente a afirmação deste congresso no panorama internacional. Sendo o IORC um congresso de especialidade encontra-se também formatado para ir ao encontro de médicos generalistas com intervenção na área da Reabilitação Oral. Partilhando igualmente uma visão multidisciplinar da Reabilitação Oral incluímos também no programa cursos teórico-prático hands-on de Fotografia, cursos destinados a Higienistas Orais, Técnicos de Prótese Dentária e Assistentes dentários.

Quais os grandes desafios da reabilitação oral implanto-suportada nos dias de hoje?

Em face da sua pergunta abrangente e para qual antevejo uma longa resposta, optaria por sintetizar que os desafios da reabilitação oral implanto-suportada encontram-se em três vertentes distintas: planeamento, vertente cirúrgico-prostodôntica e manutenção. Uma enorme ênfase é atribuída à vertente cirúrgico-prostodôntica. Por exemplo, damos conta da incessante resposta à pergunta “How short and how narrow an implant can be?” O desenvolvimento dos biomateriais, em parceria com uma indústria ávida por novidade, desafiam os limites biológicos e biomecânicos da osteointegração mostrando-nos soluções outrora impensáveis. Por outro lado, a procura de um maior biomimetismo promoveu um novo investimento em torno da zircónia como material de composição do implante. Poderão novas soluções prostodônticas oferecidas para o implante de zircónia, bem como estratégias de bioativação da sua superfície torná-lo no “gold standard” futuro? Por exemplo, teremos o Dr. André Chen a elucidar-nos face algumas destas questões na sua apresentação, do dia 7 de Abril, sobre os implantes de zircónia.

Além destas questõs creio existirem desafios tão ou mais importantes ao nível do planeamento e da manutenção da reabilitação implanto-suportada. O planeamento encontra-se numa era cada vez mais digital. Intersectar a imagem tomográfica de CBCT com o desenho prostodôntico final ideal na definição cirúrgica da reabilitação, apesar de flexível, ainda não consegue garantir elevada precisão em todo o tipo de casos. A disponibilidade deste tipo de ferramentas deve, contudo, lembrar-nos que será sempre possível planear melhor quando reunimos a maior informação possível sobre o caso em questão. Considero ser a nível da manutenção da reabilitação oral implanto-suportada onde mais se falha. Continuamos sem conseguir dar uma resposta efetiva à resolução da doença dos tecidos peri-implantares. Reconhecendo a importância de promover um bom selamento dos tecidos moles ao redor da zona do implante, continua a não existir um consenso quanto às melhores estratégias de controlo e tratamento das lesões de peri-implantite. Apenas uma abordagem de manutenção sistemática permite o seu diagnóstico precoce e perspectiva um melhor prognóstico a longo prazo. Este é claramente um desafio em aberto para toda a comunidade de especialistas.

Quais os grandes temas que teve preocupação de incluir no programa?

Partindo da conclusão da resposta anterior, partilho o novo paradigma da Implantologia atual. Sendo a osteointegração do implante um dado adquirido, a discussão e o enfoque deverão gerar-se em torno das estratégias para um melhor selamento biológico ao redor do implante. Não apenas para um resultado mais estético, mas acima de tudo para garantir uma melhor barreira face à colonização bacteriana e ao início de peri-implantite. Nesse sentido, a escolha de oradores como o Professor Giovanni Zuchelli e o Professor Homa Zadeh não foi em vão. Ambos irão focar parte das apresentações nas melhores estratégias cirúrgicas ajustadas a cada tipo de caso para aumento dos tecidos moles na prevenção das situações que acima referi. O “matching” prostodôntico na obtenção do sucesso estético da reabilitação implanto-suportada será conferido pela partilha da longa e rara experiência reabilitadora do Professor Urs Belser. Daremos igualmente destaque às últimas atualizações no âmbito da Implantologia Digital. Evidenciaremos as suas potenciais vantagens e limitações atuais com a exibição de casos clínicos partilhados pelo Professor Jaime Jimenez e Dr. Jacobo Somoza. O Professor João Caramês partilhará também as vantagens da aplicação clínica de uma segunda geração de concentrados plaquetários, onde se destaca o L-PRF, nas técnicas de aumento ósseo horizontal para a resolução estética do suporte labial na reabilitação fixa full-arch. Em suma, vamos procurar que a 6ª edição proponha a todos os congressistas um importante momento de formação contínua sobre os “hot topics” atuais em Implantologia.

Destaca a presença de algum orador em especial?

Estou certa de que todos os oradores convidados, nacionais e estrangeiros, dos mais novos (a participar no IORC Junior Summit) aos mais experientes, contribuirão para o sucesso desta 6ª edição. Nesse sentido, todos merecem o destaque da Comissão Organizadora. Pela rara aparição em congressos realizados em Portugal e pela dificuldade em juntar vários “world renowned speakers” num só palco devo destacar o Professor Homa Zadeh (que fará a primeira conferência em Portugal), o Professor Giovanni Zuchelli e o Professor Urs Belser.

Foi complicado reunir conferencistas de tão grande qualidade ou o facto de Lisboa estar na ‘moda’ facilitou os convites?

A cidade de Lisboa pode ser considerada uma das mais bonitas e atrativas da Europa, mas se não dotarmos a estrutura do congresso com a qualidade necessária a fim de cativar as referências mundiais eles acabarão por declinar. A 6ª edição do IORC encontra-se em preparação há mais de dois anos e posso revelar que a 7ª edição já está a ser preparada há algum tempo. A experiência enquanto membro do EAO Junior Committee e organizadora do Tarnow Alumni alerta-me que, para o sucesso destes eventos, só os factores antecipação, organização, rigor e base científica dos anfitriões conseguem garantir o sucesso do evento. Por isso gostaria de agradecer ao Professor João Caramês a confiança em mim depositada e a toda a equipa da Comissão Organizadora, que nos últimos meses têm trabalhado afincadamente para tornar possível o crescimento do IORC. Permita-me que destaque também a importância de parcerias, como a estabelecida com a Straumann. Tornaram igualmente possível a definição do programa e a sua maior divulgação.

O que destaca de inovador na edição deste ano? Ou seja, porque os médicos dentistas não devem perder este evento?

Por em cada edição tentarmos definir o IORC como o congresso por excelência de atualização em Implantologia e Reabilitação Oral em Portugal, achamos que todos os clínicos não deverão perder esta 6ª edição. Nas respostas anteriores pude destacar as principais razões para que generalistas ou especialistas não deixem de se inscrever. Enquanto Professora deixo a minha última mensagem para os jovens médicos dentistas e estudantes. Embora a 1ª edição do IORC Junior Summit tenha elegido jovens médicos dentistas em formação em universidades americanas, tencionará no futuro promover igualmente outros jovens colegas com similar mérito na área da Implantologia e Reabilitação Oral. Pretendemos em edições futuras continuar a dar voz aos mais jovens e aos que trabalham em prol da diferenciação. Gostaria, por isso, de convocar a presença de todos para que no dia 8 de Abril possam participar neste evento pioneiro e colher uma fonte de inspiração para o sucesso profissional. Para quem sabe um dia serem vocês a “pisar o palco”!

A 6ª edição inclui pela primeira vez o IORC Junior Summit, em sessão paralela ao programa principal. Composto por um painel de jovens médicos dentistas com formação pós-graduada em tempo integral numa Universidade dos Estados Unidos, será uma secção do congresso próxima a estudantes de Medicina Dentária e a médicos dentistas recém-licenciados. “O exemplo de estudar além-fronteiras em busca de uma diferenciação e de um mérito clínico, que hoje em dia é reconhecidamente independente da idade, estará bem patente neste momento do congresso”, refere Helena Francisco.