Entrevista

“O material biológico de origem dentária tem uma importância biológica muito grande”

“O material biológico de origem dentária tem uma importância biológica muito grande”

No âmbito da Fibrin Week, um evento organizado pela Emfils Portugal e que percorreu várias cidades portuguesas para dar a conhecer as potencialidades do uso de materiais biológicos do próprio paciente em seu benefício, estivemos à conversa com Moira Leão. A professora, doutora e mestre em Implantologia, explicou-nos tudo sobre a regeneração de tecidos.

“Quando as pessoas perdem dentes, perdem, concomitantemente, os tecidos de suporte, a gengiva e os demais tecidos moles, além do tecido ósseo. E esse é o grande desafio da odontologia: recuperar o osso perdido. Neste processo, quanto menor morbilidade (dor, inchaço e transtorno para o paciente) melhor. É por isso que procuramos técnicas que causem menor morbilidade, mas também que sejam previsíveis, que não tenham rejeição ou que o próprio organismo não expulse esse material”. É desta forma que Moira Leão começa por explicar o porquê das investigações em torno da regeneração dos tecidos e da utilização da fibrina em benefício do próprio paciente.

A professora Moira Leão uma das responsáveis pela empresa Curityba Biotech (ver caixa), esteve em Portugal no âmbito da Fibrin Week, um evento organizado pela Emfils Portugal, e revelou como se processa a regeneração óssea e como os médicos dentistas podem tirar partido desta área. “Muitas vezes precisamos usar enxertos e o golden standard é o enxerto autógeno, onde usamos um pedaço de tecido ósseo do próprio paciente, retirado de um outro local para colocar na área defeituosa. O problema é que a retirada desse osso autógeno provoca muita dor pois é necessário avançar para um segundo local cirúrgico. Essa remoção é feita dentro da boca ou fora (como no osso ilíaco, ou mesmo da calota craniana). Estes são procedimentos que envolvem a retirada de osso autógeno de locais fora da boca não podem ser realizados no consultório, mas num centro cirúrgico. Tanto eu como o Prof. Leonel estamos em Portugal para partilhar com os colegas portugueses técnicas que já estão consolidadas no Brasil”.

Sangue autólogo

Uma das técnicas é o uso de sangue do próprio paciente, ou seja, a preparação de um biomaterial autólogo para que possa ser usado em procedimentos odontológicos em benefício do próprio paciente – a fibrina. “Vemos a fibrina como um veículo que cria as condições ideais para que as células – que vão fazer o osso – migrem em direção àquela ferida e façam a regeneração tanto dos tecidos moles, como do osso”.

E para conseguir reconstruir os tecidos na sua plenitude, os investigadores baseiam-se em três pilares: “a presença de células capazes de fazer esse trabalho; a presença de um arcabouço que faça suporte e a presença de moléculas sinalizadoras: os fatores de crescimento. Essa é a tríade da engenharia tecidual”. Os biomateriais de fibrina vão fornecer dois elementos – o arcabouço e os fatores de crescimento. “Mas em situações de perdas ósseas muito extensas, por vezes a pessoa não tem células suficientes na periferia para migrar naquela direção. Então, fazemos um trabalho de isolamento, processamento (multiplicação) e até o armazenamento das células humanas no nosso Centro de Processamento Celular, no Brasil”.

Como se multiplicar as células?

Sim, é possível multiplicar as células em laboratório. “Partimos de qualquer tecido do organismo, bucal preferencialmente – como a Bola adiposa de Bichat – dentes que necessitam de ser extraídos ou pedaços de ossos que tenham de ser removidos para manter ou nivelar o rebordo. Ou seja, qualquer tecido de origem odontológica, que em seguida é levado para o Centro de Processamento Celular para isolar as células-tronco mesenquimais”, explica Moira Leão.

“Temos células-tronco capazes de se multiplicar dezenas de vezes em todos os nossos tecidos do organismo. As células presentes na cavidade oral e na região perioral têm uma memória de velocidade de regeneração muito intensa, o que faz com que se multipliquem muito mais rapidamente que qualquer outra fonte doadora de células. Isso fez com que mudássemos a forma de olhar para os tecidos biológicos saudáveis que necessitam de ser removidos, simplesmente descartá-los não é mais a opção lógica. Os tecidos biológicos saudáveis são fontes de células estaminais saudáveis e podemos multiplicá-las e armazená-las em centros de processamento celular para uma utilização imediata ou futura”. Algo que já está a ser feito no Brasil, na Curityba Biotech.

Células mesenquimais e hematopoiéticas

As células do tipo mesenquimais são diferentes das células-tronco hematopoiéticas, que estão presentes na medula óssea e no sangue de cordão umbilical, por exemplo. “O nosso centro só trabalha com células mesenquimais. As células hematopoiéticas têm uma característica: não se multiplicam no laboratório. Ou se recolhe a quantidade de células no sangue de cordão umbilical suficiente para um tratamento de uma leucemia, por exemplo, ou não há razão de se fazer o armazenamento quando não há quantidade suficiente para o tratamento de uma pessoa”.

Por outro lado, o comportamento das células do tipo mesenquimais é um pouco diferente, em uma pequena quantidade de tecido coletado é possível extrair as primeiras células estaminais. “Como elas têm uma capacidade de multiplicação muito intensa, em poucas semanas conseguimos milhões de células. Essa é uma das diferenças. A outra é que as células hematopoiéticas têm, na superfície de suas membranas plasmáticas, proteínas que sinalizam o sistema imunológico, chamadas de antígenos leucocitários. Cada pessoa tem um jogo de antígenos leucocitários e quando precisamos usar as células de uma pessoa para outra temos de procurar por doadores compatíveis.  Caso contrário os leucócitos reconhecem essas proteínas diferentes, atacam e destroem as células transplantadas”.

Já as células-tronco do tipo mesenquimais não têm estes antígenos leucocitários em suas membranas plasmáticas, logo “a pesquisa pela biocompatibilidade de uma pessoa para outra não se aplica. Do ponto de vista da biologia é possível usar as células-tronco do dente de leite do neto para tratar um problema oftalmológico do avô, por exemplo. Hoje em dia, esse material biológico de origem dentária tem uma importância biológica muito grande e cada vez mais temos visto o avanço nas pesquisas nesta área. No caso dos dentes de leite, temos 20 dentes de leite, são 20 oportunidades de poder fazer essa coleta”.

Preservar os dentes de leite

Segundo Moira Leão, os dentes de leite devem ser preservados e existe “um método para se fazer essa criopreservação. O dente tem de estar numa boca saudável, sem cáries nem doenças na gengiva e a pessoa tem de ser assistida por um médico dentista, pois é uma coleta assistida”. A partir do momento em que se remove, o dente é colocado imediatamente num frasco com os aminoácidos necessários para nutrir essas células, que vão mantendo-as vivas, mesmo fora do corpo. “Apenas quando chegarem no centro é que será feito o isolamento dessas células, que vão ser colocadas em garrafas de cultura, nos casos em que se quer multiplica-las”.

As células estaminais fixam-se no fundo das garrafas de cultivo e, segundo Moira Leão, “as que não forem células estaminais aos poucos vão morrendo. Então, ao lavarmos as garrafas, removemos as células que não são células-tronco e as que ficam fixas no fundo das garrafas são, em sua maioria, células estaminais. Isso é divino! Elas ficam como uma espécie de tapete no fundo da garrafa e quando esta fica cheia de células usamos uma enzima para recolhe-las, centrifugamos para remover a enzima utilizada e assim temos um concentrado de células-tronco. Podemos então armazena-las, fazendo um procedimento de criopreservação ou podemos continuar a multiplica-las para uma aplicação clínica e/ou em pesquisa”.

À procura de parceiros

Atualmente, Moira Leão procura parceiros, investidores e colegas médicos e médicos dentistas que tenham interesse em aplicar a técnica. “O objetivo do curso é partilhar informação e trocar experiências. O primeiro foco é introduzir na comunidade de médicos dentistas portugueses o conceito da engenharia tecidual. Queremos preparar o terreno para que num segundo momento possamos começar a usar nessa mesma lógica a presença das células estaminais”.

Curityba Biotech

Com registo tanto no Conselho de Odontologia, como de Medicina, o centro também pode receber material biológico de médicos dentistas ou cirurgiões, inclusive de Portugal. “Por exemplo, uma pessoa que faça uma cirurgia para retirar a vesícula, ou alguma cirurgia por laparoscopia, é possível retirar uma amostra de tecido e encaminhar para isolamento das células-tronco”. Moira Leão trabalha juntamente com o Professor João César Zielak, cirurgião-dentista e doutor em bioprocessos e biotecnologia. “Trabalhamos assessorando o Governo e o Ministério da Saúde na construção da regulamentação. São 10 anos de trabalho para chegarmos à regulamentação do uso destas técnicas no Brasil. Estamos felizes porque a resolução 214/2018 foi publicada este ano e dispõe sobre as boas práticas em células humanas para uso terapêutico e pesquisa clínica. Com a aprovação das regras para utilização de células humanas em uso terapêutico será possível o aumento no investimento para as pesquisas que visam o registro para as aplicações clínicas, o que levará, inevitavelmente, à ampliação de acesso pela população em geral a esta tecnologia”.

 

Porquê armazenar células estaminais?

Se todos os tecidos possuem células estaminais, porquê armazenar num banco? “Cada vez que temos uma infeção da garganta, por exemplo, as células estaminais que estão no dente do siso e que não estão a ser usadas vão ser recrutadas para ajudar a resolver o problema, seja ele na garganta, no ouvido, ou em qualquer outro local”, explica Moira Leão. Com o passar dos anos “vamos perdendo as células estaminais, limitando a capacidade auto-regenerativa do nosso corpo. É por isso que envelhecemos e morremos, porque vamos perdendo as células estaminais. Chegamos a um momento em que não temos mais células para recuperar os tecidos. A ideia de armazenar as células estaminais – quanto mais jovens melhor – é para poder, num momento de necessidade, ter um upgrade e recuperar um órgão ou um tecido perdido ou lesionado, quer seja por trauma, patologias e/ou até mesmo pelo envelhecimento”.