Investigação

Investigadores do Porto criam escova para a higienização da área da fenda lábio-palatina

Chama-se cleft toothbrush e foi pensada para melhorar a higiene oral de crianças com fenda lábio-palatina. O projeto foi iniciado por uma investigadora do Porto, já foi patenteada e aguarda o aparecimento de uma empresa interessada na comercialização.

As malformações na cavidade oral, particularmente a fenda lábio-palatina, podem originar múltiplos problemas de higiene oral. Ter uma escova de dentes adaptada às pessoas com esta condição física, sobretudo as crianças, pode ser um importante avanço para garantir uma boa saúde oral. A ideia surgiu e, depois de vários anos de estudo, uma equipa multidisciplinar desenvolveu a cleft toothbrush.

“O ter detetado uma lacuna em dispositivos médicos para melhorar, em indivíduos com fenda lábio-palatina, a higiene da área da fenda e, dessa forma, a saúde dessa área, foi a motivação inicial desta investigação. A colmatação desta lacuna é muito premente antes de se completarem as cirurgias de enxerto ósseo da área de fenda e, por isso, o público-alvo na fenda lábio-palatina é quase exclusivamente crianças”, explica Rita Rodrigues, investigadora da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Fernando Pessoa (UFP) e mentora desta iniciativa.

“Tudo isto começou ainda eu estava a estudar na UFP e, durante a licenciatura, fui alertada para uma questão muito importante – os jovens com paralisia cerebral. Nessa altura desafiei-me a criar uma escova de dentes, algo que contribuísse para a melhoria da sua higiene oral, algo que fosse um facilitador desses cuidados e que tivesse impacto social. Na altura, já tinha a ideia de desenvolver competências e de contribuir de alguma forma científica, se possível aplicada. Por isso, já tinha em mente um dia fazer investigação, potencialmente fazer um doutoramento. O clique deu-se quando em 2012 conheci um menino com fenda lábio-palatina e pude assistir à queiloplastia. Pensei: ‘E se eu tivesse a possibilidade também de repetir as mesmas motivações, aquilo que aconteceu em 2006, quando eu era aluna finalista do curso de Medicina Dentária da UFP?’. Foi por isso que eu me desafiei a realizar este trabalho para chegar a um produto que basicamente, num caso era o cabo da escova, noutro caso, nesta investigação, é a cabeça (ou adaptação) da escova de dentes. A partir daqui o processo foi moroso e doloroso, como toda a investigação científica pode ser, mas muito gratificante quanto ao resultado”, recorda Rita Rodrigues.

As crianças com malformações na cavidade oral, em especial com fenda lábio-palatina, têm muitos problemas orais. As mudanças anatómicas e morfológicas conduzem muitas vezes a uma maior acumulação da placa bacteriana, que é também mais difícil de remover. Paralelamente, estas pessoas têm também maior prevalência de cárie dentária. A chave para resolver muitos destes problemas pode estar na escova de dentes.

O que é a cleft toothbrush?

O desenho e planeamento da cleft toothbrush, pensada como uma adaptação a acoplar a uma escova de dentes convencional, teve como base a forma de um escovilhão que foi adaptado para atender às especificidades de um espaço maior e mais complexo. A introdução de uma ponta ativa na escova, por forma a ajustar-se ao espaço em todas as direções, foi determinante na conceção da forma em chama. Esta ponta atua como uma mola, facilitando a manutenção de uma força de contato durante a escovagem e o diâmetro é suficientemente pequeno para facilitar o acesso à fenda. A angulação entre o cabo e a ponta foi projetada para facilitar a aproximação e o acesso ao espaço. O uso de cerdas nos 360° permite ao utilizador produzir um efeito de fricção por rotação, sem com isto produzir traumatismo das mucosas. As cerdas não podem ser longas, pois ficariam demasiado flexíveis e não seriam eficazes na desorganização da placa bacteriana. Por outro lado, se fossem demasiado curtas, não teriam a flexibilidade desejada e lesionariam os tecidos circundantes à fenda. A solução foi usar cerdas de diferentes comprimentos ao longo do eixo, permitindo uma melhor acostagem do novo dispositivo à fenda, aumentando o contato com a área a higienizar, contribuindo assim para uma maior desorganização da placa bacteriana existente ao longo da área da fenda.

Um dispositivo útil e com design

O caminho está quase completo, conseguindo-se ter desenvolvido uma escova de dentes com design e altamente funcional. A equipa teve a preocupação de criar um produto que tivesse impacto social e que chegasse à mão dos utilizadores não “como um simples produto, mas que chegasse como algo que foi desenvolvido para a pessoa, customizado e que lhe dê algum impacto positivo, isto é, que não seja apenas mais um produto”. Os investigadores trabalharam assim no sentido de conseguir uma escova de dentes em que “a pessoa possa dizer que esta adaptação a uma escova convencional é algo que me dá satisfação em utilizar. Que consigo usar e sinto a diferença”.

Conceição Manso e Rita Rodrigues (à esquerda) com profissionais de saúde oral

Provocar este efeito nos futuros utilizadores da cleft toothbrush será possível também graças à ergonomia que foi aliada a todo o desenvolvimento do produto. Rita Rodrigues comenta que a ergonomia é o design: “Já João Catalão dizia que este é o século do design. Tudo é design na vida e o design é a estética da funcionalidade, isto é, se é bonito mas não funciona, então não é design. Esta questão é muito importante e nós estivemos muito focados na pessoa que vai utilizar o dispositivo médico que desenvolvemos.”

Testada pelos futuros utilizadores

A ergonomia desenvolvida já foi testada e aprovada pelos potenciais utentes deste dispositivo médico, embora o produto ainda não esteja disponível no mercado. Ao longo do processo de desenvolvimento, a equipa de investigadores realizou momentos de avaliação, em que as crianças e os seus educadores puderam testar o produto – a análise foi positiva. Os testes desenvolvidos tiveram uma abrangência nacional e contaram com a participação de 60 crianças.

O objetivo deste estudo foi verificar a eficácia da cleft toothbrush na desorganização da placa bacteriana em crianças com fenda lábio-palatina. Os resultados, em termos de um índice de placa bacteriana adaptado, foram comparados com os obtidos com a higienização realizada com uma escova de dentes convencional. Este estudo mostrou que a Cleft Toothbrush diminuiu significativamente a placa bacteriana (Rodrigues R, et al. Oral hygiene of children with cleft lip and palate: Efficacy of the cleft toothbrush-A designed add-on to regular toothbrushes. International Journal of Paediatric Dentistry. June 2018.) e também a carga bacteriana na área da fenda, nomeadamente de bactérias associadas à doença periodontal e à cárie dentária (Rodrigues,R. (2019). Contributo para A Higiene Oral de uma População Portuguesa com Fenda Lábio-Palatina. Tese de Doutoramento, FMDUP), o que representa um valor adicional deste dispositivo, sendo este facto de grande relevância. “Adicionalmente, é importante salientar que a maioria das crianças referiu uma maior facilidade para a realização da higiene oral com a cleft toothbrush”, refere Rita Rodrigues.

A comercialização

O processo de investigação e desenvolvimento do produto está concluído, a cleft toothbrush está pronta a ser comercializada. A equipa de investigadores procura agora uma empresa que esteja disponível para a colocar no mercado. “Já temos alguns contactos com a indústria, mas neste momento não podemos afirmar ter um parceiro industrial”, pormenoriza Rita Rodrigues. A prioridade da equipa de investigadores foi testar o dispositivo médico “para termos a certeza de que tínhamos um produto com as características para responder ao pretendido”. O grupo de trabalho procurou então no mercado nacional uma empresa que desenvolvesse o protótipo, mas não encontraram em Portugal uma empresa que respondesse aos requisitos que tinham delineado, tanto técnicos como temporais. Expandiram a procura e foi na Suíça que encontraram a CURAPROX, “que foi capaz de responder àquilo que pretendíamos, que era ter brevidade e as características específicas na produção desse protótipo”. Foi conseguida a patente para a cleft toothbrush – Patente Nacional n.º 110683 –, mas “quem a irá produzir é ainda uma incógnita”, conclui Rita Rodrigues.

A equipa multidisciplinar

O processo de implementação da metodologia levou à inclusão de profissionais de diversas áreas. A equipa transdisciplinar incluiu, além de Rita Rodrigues (UFP), investigadores/professores na área médica e médico-dentária, António Bessa Monteiro (Hospital Lusíadas) e Rowney Furfuro (Clínica Compor); na área de engenharia, Joaquim Gabriel (FEUP); e com orientação de Maria Helena Fernandes (FMDUP) e Maria da Conceição Manso (UFP). Retrospetivamente, é interessante perceber que estes intervenientes nunca estiveram todos reunidos simultaneamente. O projeto contou ainda com o apoio da empresa CURAPROX (Kriens, Suíça), que acedeu a produzir os protótipos da Cleft toothbrush utilizada nos ensaios.

“A experiência que acumulei na prática clínica mostrou-me desde cedo que é essencial ser complementada com uma boa base científica. É muito importante, nós, nós profissionais desta área, percebermos os benefícios das reflexões científicas apoiarem a nossa prática do dia a dia.”

Este artigo foi publicado na edição de setembro/outubro, n.º 128, da revista SAÚDE ORAL.