Medicina Dentária

Aliada ou substituta de um bom profissional: os dilemas da tecnologia na medicina dentária

Aliada ou substituta de um bom profissional: os dilemas da tecnologia na medicina dentária

Num mundo em contante evolução tecnológica, a área da Medicina Dentária é uma das que mais se tem destacado na adoção de novas práticas e materiais e que têm facilitado a prática dentária no consultório. Contudo, como sublinham os especialistas, a tecnologia é um aliado, mas nunca um substituto de um bom profissional.

O médico dentista Jorge João começa por descrever Portugal como estando “na crista da onda” no que concerne ao uso de gadgets tecnológicos. “Tornou-se quase que obrigatório qualquer médico dentista dispor de modernos e inovadores equipamentos, desde a vulgar ou sofisticada equipa até ao mais diferenciado equipamento”, refere o profissional, destacando que “o uso adequado destas novas tecnologias exigirão uma curva de aprendizagem variável de médico para médico, mas que, associado a uma boa formação e experiência clínica, permitirão efetuar diagnósticos mais corretos, planeamentos mais precisos e tratamentos mais complexos e rápidos, cada vez menos invasivos”.

Já o médico dentista João Mouzinho defende mesmo que os portugueses sempre foram pessoas interessadas pelas novas tecnologias e que, em muitos casos, são pioneiros na sua utilização.

Por sua vez, Ricardo Faria Almeida, professor na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto (FMDUP), acredita que “ainda estamos no princípio de um longo caminho, que passa por integrar tudo isto, os diferentes sistemas permitindo um verdadeiro aumento da qualidade/conforto de trabalho, com um cada vez menor erro”.

Também Miguel Stanley, CEO & Clinical Director da White Clinic, explica que há algum tempo já desenvolve um workflow 100% digital nas áreas da prostodontia e implantologia na sua clínica, mas considera que Portugal, em geral, “está um pouco abaixo do que seria de esperar em 2018”.

Ainda estamos no princípio de um longo caminho, que passa por integrar tudo isto, os diferentes sistemas permitindo um verdadeiro aumento da qualidade/conforto de trabalho, com um cada vez menor erro”.

Igualmente fã do uso de tecnologia, o médico dentista Octávio Ribeiro considera que, apesar de o nível de penetração da tecnologia nas clinicas dentárias ser elevado, “as universidades portuguesas deviam criar parcerias com a indústria do sector para proporcionar aos futuros médicos dentistas um contacto precoce com tecnologia de vanguarda e até trabalhar para a otimização de software e hardware”.

Mais do que uma moda

Questionado sobre os grandes avanços nos últimos anos, Miguel Stanley refere as sinergias entre várias empresas e o facto de terem aberto os sistemas de software que antes eram fechados. No caso de Ricardo Faria de Almeida, mais do que uma questão de moda considera que “é mesmo um avanço que permite melhor qualidade/conforto de trabalho e fundamentalmente melhor comunicação com o paciente, laboratório e entre médicos. Com isto não quero dizer que quem não trabalha com estas novas tecnologias trabalhe pior. De todo é assim. Digamos que é um registo diferente, ainda com algumas limitações e que está em constante evolução”, frisa o especialista em Periodontologia e Cirurgia Oral.

Outros dos avanços tecnológicos citados pelos médicos dentistas entrevistados foram os scanners intraorais, os sistemas CAD/CAM e o CBCT que, na opinião de Jorge João, têm contribuído “no incremento da qualidade dos tratamentos, bem como no rigor do diagnóstico”.

Na sua prática ao longo de 25 anos de carreira, Ana Simões Silva destaca o RVG que “tornou mais rápido o exame, tal como mais limpo, pois os líquidos de revelação eram uma desgraça para a roupa dos profissionais e, por vezes, dos pacientes (criou rapidez e precisão)”. O “scanner que permitiu que o paciente tenha mais noção do estado real da sua boca; os motores de endodontia que permitem melhor e mais rápido trabalho; a selagem térmica dos canais, que permite melhor selamento apical e consequente diminuição de probabilidade de problemas; a ortopantomografia, que se tornou mais precisa e acessível ao paciente, logo melhorou o diagnóstico; a TAC que permite um diagnóstico mais preciso; e na implantologia a sedação consciente, que permite reduzir ansiedade e facilitar tratamentos que, por serem mais longos e mais assustadores, poderiam ser evitados pelos pacientes”, refere a médica dentista para quem estes avanços têm contribuído para “o aumento da precisão no diagnóstico, num melhor e mais rápido tratamento e para podermos fazer a prevenção bucal de forma mais acertada e efetiva”.

Octávio Ribeiro acrescenta que “a facilidade de armazenamento dos dados vai permitir ao médico dentista uma maior capacidade de resposta em questões forenses e de conflito”.

Reverso da medalha

João Pato, médico dentista com pós-graduações em Ortodontia e em Ortodontia Lingual, destaca na sua área de atuação as tecnologias 3D nas suas diferentes formas, nomeadamente scanners intraorais, softwares de planeamento virtual de tratamento, impressoras 3D e tomografia computadorizada de feixe cónico (vulgarmente designada de CBCT). “Quando bem utilizada, a tecnologia permite tratamentos de maior precisão, logo mais rápidos, mais previsíveis e com maior qualidade”.

No entanto, para João Pato há o risco de haver o reverso da medalha. “A tecnologia pode levar a coisas menos boas quando mal empregue. No caso da ortodontia podemos cair no campo do “do it yourself” nos tratamentos com alinhadores, por exemplo. Bem como na reabilitação protética. Alguns engenhosos podem imprimir os seus alinhadores em casa ou mesmo as suas próteses removíveis, com a utilização de uma impressora 3D. Isso pode levar a situações “complicadas””, defende o médico dentista.

Se por um lado Ricardo Faria de Almeida afirma que o uso da tecnologia “facilita fundamentalmente em termos de diagnóstico e comunicação entre técnicos de laboratório, pacientes e médicos dentistas”, por outro ressalva que até estar completamente implementada “exige algum tempo de trabalho e adequação”. Além disso, frisa que os custos em muitas destas novas tecnologias são “altíssimos, não somente pelos aparelhos em si, mas pelos preços das licenças anuais que têm que ser pagas”, algo que o médico dentista considera que tem de mudar “claramente. Talvez seguindo o que vemos nos Laboratórios de Radiologia”.

Pacientes high-tech

Mas estarão os pacientes recetivos e conscientes do input da tecnologia nos tratamentos dentários que realizam? O médico dentista Jorge João acredita que sim, pois “na hora de decidir, a visualização da sua situação em concreto num monitor ou tablet, bem como situações de casos análogos ao seu, podem ajudar à aceitação do plano proposto. Todavia penso que toda a parafernália de equipamento se não acompanhada de um correto diagnóstico e uma humana relação médico – paciente não irá produzir os seus frutos, não sendo mais do que um show-off”.

No caso da White Clinic os pacientes apreciam e valorizam o uso da tecnologia. “É algo que podem ver e sentir”, garante Miguel Stanley, referindo o exemplo do digital smile design que, “quando corretamente aplicado permite que o paciente veja o seu sorriso final, o que nos ajuda a converter muitos casos complexos de uma forma mais simples”.

Acompanhar a evolução

Acérrimo defensor do uso da tecnologia, João Mouzinho afirma que “ninguém que esteja neste momento no mercado pode pensar em manter o seu negócio amanhã se não fizer um uso pleno das tecnologias digitais. E, no futuro, esta discrepância ainda vai ser pior entre os utilizadores e não utilizadores das novas tecnologias”, garante o médico dentista que, na sua clínica, logo à entrada entrega ao paciente um iPad com uma plataforma digital onde pode responder, imediatamente, à sua história clínica enquanto espera para ser atendido.

“Ninguém que esteja neste momento no mercado pode pensar em manter o seu negócio amanhã se não fizer um uso pleno das tecnologias digitais.”

Além disso, na sala de espera usa programas interativos que exemplificam os tipos de tratamentos utilizados na clínica e no consultório “dispomos na parte imagiológica de ortopantomografia digital, telerradiografia digital, RVG e CBCT 3D para avaliação dos nossos pacientes. Depois passam por um estúdio fotográfico onde são feitos fotos e vídeos, terminando com um scanner 3 D entra oral e um scanner da face. Com esta tecnologia criamos um clone digital do paciente que nos permite produzir uma simulação do plano de tratamento final, que pode ser mostrado ao paciente após impressão do seu resultado final nas nossas impressoras 3D”. Ou seja, o apoio da tecnologia é imprescindível desde a parte clinica à construção digital dos dentes pelo laboratório com a sua parte de desenho e produção de dentes em CADCAM.

Fator de diferenciação

Octávio Ribeiro acredita que entre as vantagens do uso da tecnologia está o facto de ser “um fator de diferenciação na escolha dos profissionais pelo paciente e um fator de fidelização”. Para João Pato, além da poupança de tempo, as vantagens passam pela “motivação extra do paciente para realizar os tratamentos (uma vez que visualiza os resultados possíveis antes mesmo de iniciar um tratamento) o que pode aumentar a taxa de aceitação dos tratamentos propostos, possibilidade de englobar o paciente de forma mais facilitada na discussão dos planos de tratamento, e individualização dos aparelhos ortodônticos para cada paciente permitindo, dessa forma, resultados mais previsíveis e mais rápidos”.

João Mouzinho advoga que o mais importante de tudo é o facto de os tratamentos serem muitos mais previsíveis, “porque os erros acontecem apenas e só no computador, onde rapidamente podemos fazer CMD + Z e começar de novo, o que na boca de um paciente seria impensável”.

A fotografia digital é igualmente imprescindível não só para registo, mas para o diagnóstico e planeamento, bem como no acompanhamento da evolução da situação clínica. O planeamento ortodôntico 3D para o Sistema Invisalign é uma realidade”

Contudo, tal tecnologia não está ao alcance de todos os bolsos, pois o seu ainda elevado custo fazem com que sejam “proibitivos para a maioria das clínicas dentárias portuguesas”, avalia Jorge João que, na sua prática clínica diária, não prescinde de técnicas radiológicas como a radiovisiografia, ortopantomografia e telerradiografia digitais e, sempre que necessário, a TAC. “A fotografia digital é igualmente imprescindível não só para registo, mas para o diagnóstico e planeamento, bem como no acompanhamento da evolução da situação clínica. O planeamento ortodôntico 3D para o Sistema Invisalign é uma realidade”, refere o médico dentista, acrescentando: “paralelamente dispomos de uma variedade de programas de software para ortodontia e implantologia, de outros dispositivos e pequenos equipamentos impensáveis há uns anos, sem os quais não seríamos capazes de realizar os tratamentos dos nossos pacientes”.

Efeitos da crise

No caso da Medicina Dentária, a crise sempre afetou a procura pelas consultas, pois em momentos de “aperto económico” a ida ao dentista desce na lista das prioridades das famílias portuguesas. Daí que não seja de estranhar que, na prática diária, alguns dos entrevistados tenham de tomar decisões de acordo com o orçamento disponível, pese não sejam as mais eficazes de que dispõem. “Temos dos melhores dentistas do mundo e dos mais apaixonados por tecnologias de vanguarda, todavia as prioridades dos pacientes portugueses ainda são outras”, afirma Jorge João, que exerce há 30 anos a profissão.

Já Armanda Amorim, que se formou em Medicina pela FMUL em 1975, acredita que a tecnologia é importante, mas que o futuro da Medicina Dentária não é assim tão dependente desta, “mas muito mais da criação de estruturas que a valorizem, em termos de educação das populações sobre os benefícios da saúde oral em qualquer idade e estado de saúde sistémica”.

O futuro aqui tão perto

Em relação às novidades que vão chegar aos consultórios a curto-prazo todos são unânimes em afirmar que a evolução é constante e que há sempre nova tecnologia a chegar ao mercado. Ana Simões Silva está expectante em relação ao uso de impressoras 3D que, acredita, “vai retirar novamente tempo de espera ao paciente”, bem como “o uso do laser na remoção de esmalte e destina cariada”.

João Pato refere os tratamentos ortodônticos realizados com “utilização de brackets totalmente customizados (nos casos dos aparelhos fixos), obtidos através das técnicas de set-up virtual e existirão cada vez mais marcas de alinhadores baseados nas mesmas técnicas de set-up virtual”. Para este médico dentista “também os meios de diagnóstico utilizando scannings 3D do crânio e da face, com planeamento do sorriso integrado em toda a estrutura craniofacial (tecidos duros e tecidos moles) será cada vez mais comum”.

Assumindo-se “viciado em tecnologia”, João Mouzinho pensa que “a utilização de robôs em alguns procedimentos será o futuro porque existem alguns tratamentos que são falíveis pela utilização da mão humana. E tudo o que ajude a diminuir o erro vai ser imprescindível”. Também Miguel Stanley que garante que, neste momento, “não existe nada que não estejamos a utilizar em termos de workflow digital e já com alguma experiência”. Acredita que, no futuro, “a inteligência artificial vai ser algo de muito forte”.