Entrevista

Debbie Guatelli-Steinberg: “Não estamos adaptados à alimentação que temos hoje”

debbie steinberg - Saúde Oral

No seu livro “What Teeth Reveal About Human Evolution” (Cambridge University Press, 2016), a antropóloga Debbie Guatelli-Steinberg descreve o que os dentes fossilizados revelam sobre a história e condições de vida dos nossos antepassados. Uma descoberta revela que o consumo elevado de alimentos suaves e doces que se verifica no mundo Ocidental atualmente é o culpado pelo aumento constante de problemas dentários, como a cárie dentária e a má oclusão. A Dental Tribune teve a oportunidade de entrevistar a professora da Ohio State University sobre as causas deste desenvolvimento e o impacto que a sua investigação pode ter na vida moderna.

Dental Tribune: A Profª. Guatelli-Steinberg dedica-se ao estudo de dentes fossilizados para compreender as condições de vida dos nossos antepassados. O que podem revelar os dentes sobre a vida primitiva e a evolução humana?

Guatelli-Steinberg: Os dentes constituem grande parte do registo fóssil dos mamíferos e isso aplica-se também no caso da evolução humana. A razão: os dentes são muito mineralizados, por isso resistem à destruição e decomposição. O facto de os dentes facilmente fossilizarem é extremamente conveniente para o antropólogo, uma vez que estes contêm informação detalhada sobre dieta e crescimento na sua estrutura física e química. O livro visa sintetizar conhecimentos sobre a evolução humana que os investigadores obtiveram a partir dos dentes – esses dados incluem o reconhecimento que as dietas começaram a diversificar-se cedo na evolução hominínea, tendo tornado possível à nossa linhagem superar as flutuações na disponibilidade de alimentos. A partir de linhas de crescimento diário nos dentes, os investigadores conseguiram calcular o tempo que o dente demorou a desenvolver-se até à sua erupção na cavidade oral. E, como o desenvolvimento dentário está relacionado com o desenvolvimento do organismo como um todo, tem sido possível usar o ritmo de crescimento e desenvolvimento dentário para medir a evolução da infância prolongada, uma característica única que distingue os humanos dos restantes primatas. Inclusivamente é possível, e muita da minha pesquisa incide neste ponto, usar as linhas de crescimento dos dentes para avaliar o momento e a duração da interrupção do crescimento do esmalte, fornecendo uma visão sobre períodos de stress fisiológico (subnutrição, doença) nas vidas individuais dos nossos antepassados.

O que despertou o seu interesse por esta área de investigação?

Sempre me interessei pela evolução humana e de primatas não-humanos, e quando comecei o meu doutoramento na Universidade de Oregon encontrei o Professor John Lukacs, que usava dentes para responder a questões relacionadas com estes tópicos. Pareceu-me algo fascinante – conseguir descobrir tanta informação a partir de dentes fossilizados.

Como se descodifica a informação obtida a partir de dentes fossilizados?

Podemos obter informação sobre taxas de crescimento e desenvolvimento nos dentes ou sobre a morfologia dentária, mas esses dados requerem um contexto mais alargado para serem interpretados. Por exemplo, nos humanos a erupção dos primeiros molares dá-se por volta dos seis anos, mas esse facto não nos diz muito, a não ser que seja comparado com outros mamíferos, especialmente primatas não-humanos. Os cães crescem rapidamente e os seus primeiros dentes definitivos surgem cerca dos seis meses de idade. Também atingem a maturidade e morrem muito mais cedo do que nós (o que é triste para os donos destes animais de estimação). Nos chimpanzés, a erupção dos primeiros molares ocorre cerca dos quatro anos e este animais não parecem ter uma esperança de vida natural tão longa quanto a nossa. Por outras palavras, os ritmos de desenvolvimento dentário refletem o ritmo de desenvolvimento das espécies, mas não saberíamos isso se não comparássemos os humanos aos outros primatas. Isto aplica-se também aos fósseis dentários: precisamos de um contexto comparativo mais vasto para perceber as indicações que nos dão.

No seu livro afirma que os nossos dentes estavam adaptados a uma dieta muito diferente da que temos nas sociedades ocidentais de hoje. Pode explicar-nos?

Quais são as consequências (negativas) desta mudança na dieta? Claro. Ao longo de grande parte da nossa história evolutiva (até ao aparecimento da agricultura há cerca de dez mil anos), nós os humanos éramos caçadores-recoletores, comíamos alimentos que podiam ser colhidos ou caçados. Estes são os alimentos para os quais os nossos dentes estão adaptados. Com a chegada da agricultura e com a introdução recente de alimentos processados e açucarados na dieta alimentar deu-se um aumento exponencial de má-oclusão e patologias dentárias. Basicamente, não estamos adaptados às dietas que temos hoje em dia, uma vez que estas alterações alimentares são bastante recentes na nossa história evolutiva.

Diria que os problemas dentários atuais, como a elevada prevalência de cáries e doença periodontal, são aspetos da evolução criados pelo próprio Homem?

É possível encontrar patologias do foro oral em fósseis de antigos homoniníeos, mas apenas num pequeno grupo de indivíduos. Por isso diria que, apesar de as patologias dentárias ocorrerem cedo na evolução humana, não eram de longe tão frequentes como se verifica hoje.

Como explica essa diferença?

Se considerarmos que não existiam dentistas nem produtos de higiene oral na altura, imaginamos que os nossos antepassados já seriam edêntulos ao atingir o meio da faixa dos 20 anos. Com os alimentos mais suaves, cariogénicos consumidos na dieta agrícola, o ecossistema de bactérias presentes na boca alterou-se. Uma cientista, Drª Christina Adler, da Universidade de Adelaide (Austrália), e os seus colegas identificaram a sequência AND bacteriano obtido a partir de tártaro de dentes de caçadores- recolectores e de agricultores primitivos europeus. O que descobriram foi que esta mudança no ambiente oral e mais tarde com a produção de açúcar refinado durante a Revolução Industrial, a diversidade da flora bucal diminuiu, dando predominância às estirpes que provocam cáries. No fundo, o ambiente bucal mudou para permitir um ambiente propício ao crescimento de estirpes que provocam cáries.

O que se verifica em tribos primitivas que não foram afetadas pela civilização ainda hoje? Apresentam uma saúde oral significativamente melhor do que as pessoas que vivem em regiões industrializadas?

Quando as pessoas que não seguem a dieta de alimentos processados e açucarados ocidental entram subitamente em contacto com ela, as taxas de patologias orais sobem. Por exemplo, os esquimós nativos tinham muito poucas cáries até terem introduzido os alimentos processados e refrigerantes açucarados na sua dieta, depois disso a taxa de cáries aumentou de forma dramática. Li, igualmente, que a amamentação proporciona uma estimulação mecânica ideal para o desenvolvimento normal do maxilar.

Poderá o decréscimo atual na amamentação significar que as crianças modernas têm um risco mais elevado de vir a desenvolver má-oclusão e a necessitar de tratamento ortodôntico?

É uma boa questão, mas como não sou médica dentista não tenho a resposta. Posso adiantar que os estudos pioneiros levados a cabo pelo Prof. Robert Corruccini em babuínos (que raramente têm problemas de má-oclusão) demonstraram que dietas com alimentos suaves originam apinhamento e rotações dentárias. Em suma, sem alimentos duros ou difíceis, o crescimento ósseo no maxilar do babuíno não era suficiente para conseguir acomodar os dentes do animal.

Que influência tem a genética no desenvolvimento do maxilar, dos dentes e na saúde oral?

Como a evolução é um processo que leva centenas e milhares de anos, provavelmente não é possível recuar os ponteiros do relógio apenas com a adoção de uma dieta específica.