EntrevistaEntrevista

Cátia Íris Gonçalves: “Chorei de alegria quando recebi a carta. Digo-o sem vergonha nem decoro”

Cátia Gonçalves - mestre em Periodontologia - Saúde Oral

A médica dentista Cátia Íris Gonçalves conquistou recentemente o título de especialista em Periodontologia. Falámos com a profissional que nos revelou dias complexos até à obtenção da especialidade.

Agora que já é especialista em Periodontologia, como decorreu todo o processo até a obtenção do título? Foi complicado?

Foi complicado, sim. Trabalho em nove clínicas e tinha casos que queria utilizar de quase todas elas (os mais completos, em termos de registos fotográficos e radiográficos). Algumas destas clínicas ficavam um pouco fora de mão (Lisboa), sendo eu do Porto, de modo que tive de me munir de energia extra para reunir toda a informação necessária, tanto a nível de documentação dos casos (fotografias e raios X), como consentimentos assinados presencialmente pelos pacientes e documentos validados pelo notário, confirmando que efetivamente tinha trabalhado “x” horas nas clínicas respetivas, documento o qual exigia a presença física dos diretores clínicos, aos quais agradeço profundamente a disponibilidade e ajuda.

Andei cerca de dois meses louca e insuportável a reunir papéis, fotos, rx, slides, manter o trabalho clínico e a vida familiar. As/os minhas/meus assistentes dentários foram maravilhosas/os e reuniram-me parte da documentação relativa aos processos dos pacientes. Como periodontologista de “saltimbanco” sofri um pouco a reunir e organizar tudo o que era necessário, mas felizmente a colaboração humana nestas situações surpreende positivamente. Se dúvidas houvesse, restaurar-se-ia a fé na competência, amizade e entreajuda profissionais.

A obtenção do documento comprovativo do nº de horas frequentadas no meu Mestrado em Periodontologia na FMDUP também me tirou o sono durante uns dias, uma vez que o mesmo estava traduzido em unidades de crédito e não em número de horas (o Mestrado era pré-Bolonha). Mas toda essa contagem foi feita e, no fim, acabou por ser apresentada a candidatura em tempo útil.

O que representa para si a obtenção deste título?

Chorei de alegria quando recebi a carta. Digo-o sem vergonha nem decoro. Chorei mesmo.

Amo a periodontologia  e este título representa parte do nosso desempenho – em muitos casos, ao longo de muitos anos – a nossa dedicação intensa e honesta a uma área específica, conseguindo obter resultados clínicos favoráveis, sendo reconhecido pelos pares e pela nossa Ordem, fazendo-nos sentir que alguém está atento ao nosso trabalho. É como se nos dissessem: “dentro desta área reservada, tens o teu lugar. Ganhaste o direito de te sentares dentro do círculo dos que fazem o mesmo que tu com dignidade e destaque”.

Sei que parece elitista, mas não é bem isso. A nossa profissão é muito solitária, os pacientes nem sempre reconhecem tudo aquilo que está subjacente a um bom diagnóstico, a um tratamento bem planeado e executado e este título vem confirmar a nossa paixão, dedicação e privação de uma vida mais relaxada ou menos exigente, em função de investimento profissional numa área que amamos e na qual nos destacamos, muitas vezes, de forma desinteressada financeiramente, por brio profissional, por teimosia de querer saber e fazer mais e melhor. Se não conseguisse ser especialista não morria, mas ficaria muito, muito desiludida.

Planos para o futuro? Curto e médio prazo?

Sinto-me muito pequenina ainda. Quero estar à altura deste título, quero fazer melhor, praticar mais técnicas, ler mais, ver e aprender sempre. Não deixar ficar mal os meus pacientes e os meus colegas que confiam no meu trabalho. Continuar ligada à formação – é muito cansativo, trabalhoso, stressante, mas adoro. E também investir na família, na amizade e no companheirismo. Essa é a única forma que conheço de viver bem, de ser feliz, de nos sentirmos equilibrados e acompanhados.

Gostava de poder contribuir, de alguma forma, para mudar um pouco a competição e desonra desenfreada que infelizmente se sente, em algumas situações, no meio da medicina dentária. Todos temos o nosso percurso peculiar – mas, genericamente, temos também a responsabilidade e o dever de unir a classe.