Entrevista

Artur Miler: “O que mais me marcou foi o estado de saúde oral de muitos utentes”

Artur Miller - Saúde Oral

No início de 2017, com as novidades anunciadas pelo Governo no sentido de estender o Programa de Saúde Oral – Experiência Piloto que se encontra a decorrer em 13 Centros de Saúde, constata-se que a medida parece caminhar para uma realidade cada vez mais vincada no Serviço Nacional de Saúde.

Entrevistámos Artur Miler, médico dentista que integra atualmente o projeto piloto inicial na ARS Alentejo – mais concretamente no Centro de Saúde de Montemor-o-Novo – que revelou como surgiu a oportunidade de integrar o projeto e quais as principais dificuldades que encontrou no terreno.

Como surgiu a oportunidade de poder integrar o projeto piloto inicial na ARS Alentejo?

A oportunidade surgiu no decorrer do interesse que sempre nutri pela integração da Medicina Dentária no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e motivada, sobretudo, pela originalidade de poder integrar um projeto pioneiro, perspetivando uma realidade que irá vigorar no futuro, mais aprimorada e sedimentada, colmatando esta carência do SNS.

Acresce ainda o facto de poder ter, neste momento, para lá da vontade, a possibilidade de participar na necessária mudança e também na continuidade da minha formação académica pós-graduada. A colocação na Administração Regional de Saúde (ARS) do Alentejo surge por intermédio do tipo de concurso que foi realizado, um pouco “às escuras”, mas que acabou por merecer o meu regozijo pelo facto de ter conseguido integrar um Centro de Saúde e uma ARS que, ao contrário da ARS Lisboa, se encontrava completamente “virgem” no que aos médicos dentistas diz respeito, visto que nesta região nenhum médico dentista havia exercido a sua atividade num Centro de Saúde, o que reforça ainda mais o que acima referi sobre o aliciante de assumir este desafio.

Como tem estado a correr o projeto?

O Projeto Piloto de Saúde Oral começou, como seria de esperar em qualquer projeto inovador e nos seus primeiros passos, com as habituais dúvidas sobre o seu funcionamento, de como iria decorrer e de que forma conseguiríamos levar a cabo esta tarefa. Tive a sorte e o privilégio de ficar integrado num Centro de Saúde que é uma referência nesta zona do Alentejo, pelas valências que coloca à disposição do utente no que se refere aos seus cuidados de saúde, vindo agora o médico dentista dar mais uma achega para o culminar de uma equipa que se pretende multi e interdisciplinar em termos de procura e oferta de cuidados básicos de saúde e de proximidade.

Daí ser fácil perceber a escolha de Montemor-o-Novo para integrar os 13 primeiros Centros de Saúde a receberem este projeto. Foi difícil o início, para todos os intervenientes, mas posso garantir hoje que já estamos devidamente integrados nesta Unidade de Saúde, a funcionar e a conseguir dar conta dos vários pedidos e referenciações que são feitas para a população de Montemor-o-Novo e não só, pois a área de influência foi recentemente alargada aos utentes de Vendas Novas e Arraiolos.

Podemos quantificar as consultas que já foram dadas?

Os números são muito importantes e são, muitas vezes, o melhor dado para se apresentar a quem tem interesse sobre o nosso trabalho, aliás como em qualquer outra área. Mas creio que, quando estamos a falar de saúde, temos sempre de mediar a relação entre conseguir chegar ao maior número de pessoas e, ao mesmo tempo, conseguir disponibilizar o tempo necessário para a satisfação do utente e para resolver o seu problema.

Com base nestes pressupostos estou satisfeito com os números alcançados até ao término do ano de 2016, que são os dados mais palpáveis que posso dar nesta altura. No entanto, na ARS Alentejo apenas nos apresentamos dia 15 de Setembro, ao contrário de outros colegas que começaram no dia 1 de Setembro. Tivemos de montar o consultório, reportar o material mais básico em falta, integrar-nos num sistema de esterilização… entre outras tarefas que foram realizadas e que são o motivo para hoje podermos orgulhar-nos da plenitude da integração e dos números que apresentamos – foram já realizadas cerca de 300 consultas de medicina dentária neste Centro de Saúde.

Como é o seu dia-a-dia no Centro de Saúde de Montemor-o-Novo?

O meu dia-a-dia acaba por ser muito parecido com um médico dentista a trabalhar na sua clínica. E mesmo até com um médico de família de um qualquer Centro de Saúde. Existe um horário que foi inicialmente enquadrado e acertado de acordo com o funcionamento desta Unidade, devidamente articulado com a Higienista Oral e de acordo com o protocolado com a tutela.

São 40 horas semanais em que os dias passam a correr e em que se vão realizando as consultas devidamente agendadas. E em que, em muitos casos, temos o privilégio de, no nosso caso de Montemor-o-Novo, existir uma abordagem multidisciplinar e interativa ao utente, perfeitamente integrada no espírito de equipa que carateriza a forma de trabalho das Unidades de Saúde Familiar (USF) e dos restantes profissionais que aqui exercem funções.

Quais as queixas, ou sugestões, mais referidas pelos pacientes?

Os pacientes são pessoas que se interessam por este novo serviço disponibilizado. São o espelho do que muitos utentes deste país, especialmente aqueles que vivem com mais dificuldades, esperam do Serviço Nacional de Saúde. E não deixam de solicitar tratamentos, pois passam a ter uma vontade genuína de melhorar a sua saúde oral, uma consciencialização agora cada vez mais efetiva do benefício de uma boa saúde oral para a melhoria da sua saúde geral.

As principais queixas, que acabam por ser também sugestões, prendem-se com o facto de não podermos disponibilizar uma reabilitação oral protética para que muitos daqueles que são referenciados para a nossa consulta consigam efetivamente melhorar a sua qualidade de vida.

O que mais o marcou até agora deste contacto com os utentes?

O que mais me marcou foi sem dúvida o estado de saúde oral de muitos utentes. É referido por vários colegas integrados no projeto muitos pacientes que há muito não iam a uma consulta de medicina dentária, chegando ao ponto de muitos deles nunca ter sequer ido a qualquer consulta, ou mesmo relatos de experiências traumáticas que sofreram noutros serviços e noutros tempos que os traumatizaram e causaram constrangimentos e desconfianças à figura do médico dentista.

E esta educação para a saúde oral, esta consulta integrada dentro dos cuidados de saúde primários, como uma mais-valia que existe dentro deste Centro de Saúde, neste momento com duas USF, a qualidade de tratamento oferecida e a forma como os utentes já indiciam uma maior confiança nesta Unidade, são factos que me marcaram no meu desempenho profissional.

Como classifica a medida de integrar médicos dentistas no SNS?

A integração no Centro de Saúde é um upgrade necessário e vital para a melhoria da qualidade de vida dos utentes. Estou certo que a tendência será uma mais ampla divulgação e um melhor conhecimento, por parte dos médicos e dos utentes, sobre a importância da saúde oral no âmbito da saúde em geral.

Nesse sentido, tenho a certeza que este projeto piloto será uma peça fulcral para atingir os objetivos, quer da nossa classe – no sentido de conseguir colocar a medicina dentária como valência integrante do SNS e conseguirmos implementar a carreira do médico dentista do SNS – quer da tutela, que assim colmata uma grave lacuna do nosso SNS ao permitir melhorar os dados relativos à saúde oral do nosso país, que são sem dúvida maus, contrastando com a excelência do ensino da medicina dentária que temos no nosso país, os exímios profissionais e a enorme rede de consultórios dentários espalhados pelo país.

E conseguimos chegar àqueles inúmeros utentes com mais dificuldades financeiras, com maior grau de exclusão social e cultural, para que possam aceder a cuidados de medicina dentária, beneficiar a sua saúde oral, a sua saúde geral e a sua qualidade de vida.

Na sua opinião, o que leva alguns dentistas a olhar com desconfiança para esta medida?

A ideia da Integração dos médicos dentistas no SNS era há muito uma reivindicação da nossa classe. A forma como a saúde oral era encarada na saúde geral do paciente causava junto da população, por si só, uma menorização desta área médica. Nesse sentido, com a vontade demonstrada por este Governo, nomeadamente na figura do atual Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, foi possível dar início e efetivar a disponibilização deste serviço, o que despoletou em todos os colegas uma enorme expectativa sobre a real dimensão desta medida.

E, creio, cada um formulou uma ideia de como haveria de funcionar este serviço e do papel que o médico dentista viria a desempenhar, com a carreira a ser um fator primordial a ser abordado e projetado para a nossa profissão. A isto aliou-se a circunstância de o concurso em si mesmo ter causado alguma estranheza e relutância a quem nele viu mais complicações do que facilidades. A própria tutela ter-se-á “precavido” em demasia! E eu, como muitos outros colegas, não fui diferente na forma como imaginei e encarei o Projeto.

Mas ao longo da minha vida, fruto de experiências e de projetos que fui integrando, tive também a noção da dificuldade do arranque de medidas como esta e de como, no início, é difícil conseguir agradar a todos. Como eu, muitos colegas, apesar desta desconfiança inicial, irão verificar as mais-valias deste projeto, irão certamente dar contributos importantes para a sua melhoria e integrar a rede de cuidados de saúde oral que o país possui. Além disso, creio que este será um veículo não para aquilo que muitos parecem temer – uma desvalorização da profissão – mas pelo contrário para uma maior valorização da profissão, do serviço que prestamos por forma a conseguirmos, finalmente, a almejada carreira do médico dentista no SNS.

O que poderia ser feito para melhorar o programa?

Os pacientes são bastante recetivos à ideia da presença do médico dentista, reforçada pela referenciação efetuada pelo seu médico de família. Aliás, um dos pontos que se deve reforçar é alertar os médicos de família para a necessidade de avaliarem o doente também do ponto de vista da sua saúde oral, sendo importante a presença dos médicos dentistas nas reuniões das USFs em que se encontram inseridos, dissipando dúvidas que possam surgir por parte destes e de outros profissionais de saúde.

Relembro que até aqui os pacientes que mais usufruíram deste tipo de cuidados foram os mais necessitados, aqueles que já carregam consigo uma cruz associada às doenças crónicas de que padecem e que, ao abrigo deste programa, têm aqui mais uma medida fundamental para melhorar a sua qualidade de vida.

E, por conseguinte, o que mais é referido é o facto de, a partir de agora, ser necessário alargar o programa no sentido de proporcionar reabilitação oral protética a muitos utentes que dela necessitam. São vários os casos em que temos consciência do quanto ainda podemos melhorar este projeto, apesar do muito que até aqui já se fez. As opiniões e anseios destes utentes serão, porventura, a fonte mais fiável de para onde deve caminhar este projeto. Talvez em cooperação com as IPSS, Câmaras Municipais e outras entidades, consigamos reabilitar mais utentes, provê-los de meios para mastigar e com isso uma melhor alimentação e poder sorrir.

O que gostava que acontecesse em 2017?

Em 2017 gostava de terminar o Mestrado em Geriatria na Faculdade de Medicina de Coimbra, bem como outra Formação Avançada que estou a frequentar e concluir outros projetos em que estou envolvido. Tenho esperança que seja o ano da confirmação deste projeto piloto, da sua viabilidade e da concretização de muito do que fui referindo nas questões anteriores, com o enfoque na criação da carreira do médico dentista e, com isso, ajudar na integração e formação de outros colegas que queiram vir a integrar o Serviço Nacional de Saúde.

E, nesse sentido, continuar a dar o meu contributo para que seja possível dotar toda a população de uma boa saúde oral, para uma valorização da profissão do médico dentista e para uma saudável cooperação entre todos os intervenientes no campo da saúde, com a consciência que todos somos poucos, quer na valorização da nossa profissão, quer na sua importância para a qualidade de vida das pessoas.