Entrevista

“Ao fim de 80 anos algo do que fiz poderá ter ficado para o futuro”

César Mexia de Almeida nos Prémios Saúde Oral

César Mexia de Almeida fez carreira na área da Saúde Pública e este ano conquistou o Prémio Carreira, nos Prémios Saúde Oral 2017. Em entrevista à Saúde Oral recorda os momentos altos de uma carreira preenchida e continua com um espírito crítico. Principalmente quando afirma o desejo que o tempo de menoridade na saúde oral termine. “Nunca a Saúde Oral, como entidade com existência própria na Direção Geral da Saúde desde há cerca de 35 anos, esteve gerida por alguém da área (higienista oral, médico dentista ou médico estomatologista)”.

O que significa para si vencer o Prémio Carreira dos Prémios Saúde Oral 2017?

Significa que o que fui fazendo e defendendo ao longo da minha vida ativa, quer no campo da saúde pública oral, quer no campo da clínica estomatológica, quer ainda como docente da Faculdade de Medicina Dentária da UL, teve algum eco positivo, o que é uma boa sensação.

Como recebeu a notícia, com surpresa?

Com grande surpresa. Assim como algo que é desejado, uma apreciação positiva dos pares, mas que nunca será alcançado. Afinal, surpreendentemente, foi alcançado.

O que sentiu quando subiu ao palco para receber o prémio?

Ao subir aqueles degraus tive uma sensação muito boa, diria mesmo extraordinária: afinal ao fim de 80 anos algo do que fiz poderá ter ficado para o futuro!

No seu discurso de agradecimento recuou 53 anos e recordou uma carreira dedicada à saúde pública. Porquê essa área?

Recuei até à tese de licenciatura em Medicina porque teve como tema um estudo no campo da saúde pública (“Contribuição para o Estudo das Condições de Conforto Térmico numa População do Alto Alentejo”). Procurei evidenciar como, desde muito cedo, senti muito interesse pelos temas da saúde pública.

Como era a profissão nessa altura? Ou seja, o que recorda?

Há 50 anos, a população em geral tinha grandes carências na saúde oral por falta de capacidade económica e, também, por falta de profissionais e de educação para a saúde. Ao contrário da situação atual dos médicos dentistas recém-licenciados, rapidamente fui ganhando pacientes porque as carências em médicos estomatologistas eram muito grandes. Havia cerca de 700 estomatologistas para 11 milhões de habitantes. Por outro lado sentia grandes lacunas na preparação para o exercício da estomatologia. Pelo que, tal como outros colegas, entre os quais destaco o Prof. Armando Simões dos Santos – que de alguma forma liderava este grupo no sul – frequentava todos os cursos que a então Sociedade Portuguesa de Estomatologia organizava em Lisboa, Porto e Coimbra e comecei mesmo a frequentar cursos em Madrid, Barcelona e Paris, neste caso nomeadamente em Periodontologia, que então emergia como um campo novo.

Tinha alguém na família nesta área ou foi uma área que escolheu por si?

Não havia qualquer tradição de prática da medicina na família. Foi uma área que escolhi por mim sob influência, confesso, de um professor que entendia que eu teria características favoráveis para o exercício da medicina, pelo que me influenciou no sentido de fazer essa opção.

Na altura o que queria ser quando fosse adulto?

Tinha dúvidas entre a Agronomia, dada a tradição familiar ligada à agricultura há muitas gerações, e a Medicina.

Como evoluiu na profissão?

Em 1967, depois de regressar da guerra colonial, ou guerra no Ultramar como se lhe chamava oficialmente, reingressei no internato geral no Hospital de Santa Maria (HSM) (1967-69), seguiu-se o internato complementar de estomatologia no mesmo HSM (1969-72). É neste momento que começa a minha atividade como “dentista” (à tarde ainda prosseguiria por algum tempo a minha atividade como médico de serviço domiciliário das Caixas de Previdência, na área de Benfica, porque era necessário assegurar a sobrevivência).

A especialidade como médico estomatologista foi adquirida com o exame final do internato complementar de estomatologia do HSM em 1972. Entretanto já em 1970 tinha iniciado atividade clínica privada substituindo um colega na Amadora. Alguns meses depois surgiu oportunidade de montar um gabinete de estomatologia numa policlínica em Benfica, por cima da então Farmácia Macedo. Anos mais tarde, em 1977, mudei-me para uma zona mais central e aí fiquei até à reforma da clínica privada, em 2000, a qual antecedeu a reforma da Faculdade, que ocorreu em 2006.

Fui praticando como generalista, mas fui procurando adquirir mais conhecimentos na endodontia porque sentia as dificuldades em resolver grande número de situações de urgência sem um conhecimento mais profundo da patologia pulpar, dos seus sintomas e do seu tratamento. Muito consciente das carências de preparação básica frequentei muitos cursos. Destaco o curso de endodontia, frequentado em Maio de 1974 na Boston University School of Graduate Dentistry, ministrado pelo Prof Herbert Schilder, nessa altura uma figura mundial na endodontia e que já introduzira a técnica de obturação com a guta percha quente (warm gutta percha thecnique) a qual exigia uma técnica específica de preparação dos canais, a ‘crown down preparation’, completamente inovadora porque executava uma preparação completamente invertida, descendente, em relação à preparação tradicional, ascendente.

Ainda estava no serviço permanente domiciliário das Caixas de Previdência, que exercia à tarde, quando fui colocado como médico estomatologista na Caixa de Previdência de Odivelas. Nessa altura dá-se um acontecimento que vai transformar completamente a minha atividade profissional: fui “requisitado” para a Comissão Instaladora da Escola Superior de Medicina Dentária de Lisboa (CIESMDL) (1975). Desta Escola já só saí para a reforma. Por outro lado, ao contrário da situação atual de muitos médicos dentistas recém-licenciados, rapidamente fui ganhando pacientes porque as carências em médicos estomatologistas eram muito grandes.

César Mexia de Almeida discursa nos Prémios Saúde Oral

A nomeação, em 1975, para a CIESMDL foi um passo que alterou definitivamente minha vida profissional. Acrescento que se verificou na sequência de um plenário em Aveiro, já tinha sido o 25 de Abril, em que o meu nome foi incluído na proposta enviada ao ministério da Educação, juntamente com os colegas João Bação Leal, Armando Falcato Simões, António Nunes da Silva e Armando Simões dos Santos, para integrar aquela comissão. O odontologista Fernando Ferreira foi acrescentado àqueles nomes pelo Ministério da Educação.

Foram anos de atividade entusiasmante a que a cooperação recebida da Noruega, durante seis anos, permitiu um grande salto para uma das frentes mais atualizada da formação dos médicos dentistas na Europa. Nós, como médicos estomatologistas, tínhamos naturalmente uma componente de formação médica muito forte mas, por outro lado, assinaláveis carências na formação dentária, que procurávamos colmatar com uma grande dose de autodidatismo. A introdução do ensino do diagnóstico e tratamento das doenças da cavidade oral sob a forma de licenciatura em Medicina Dentária era então e como hoje, na minha opinião, uma necessidade absoluta.

Quais os momentos que recorda com saudade?

Recordo como momentos especiais o início dos contactos com o Instituto de Odontologia de Bergen que abrem um mundo novo e organizado ‘à escandinava’, a inauguração da Escola Superior de Medicina Dentária de Lisboa, depois a inauguração do edifício destinado a albergar os cursos de formação profissional (assistentes de gabinete, técnicos de equipamento, técnicos de prótese, higienistas orais), a defesa da minha tese de doutoramento e a atribuição a esta tese do prémio Ricardo Jorge de Saúde Pública 1997. Também recordo com satisfação especial, porque penso que foi uma proposta no sentido correto, a aceitação pela Comissão Diretiva dos Cursos de Formação Profissional da designação de higienista oral em vez de higienista dentário.

No seu discurso de agradecimento disse que deseja que termine o tempo de menoridade na saúde oral. O que quis dizer com isto?

A Saúde Oral é uma área da saúde pública com grande dimensão e enorme importância. Basta ter presente todos os problemas que as duas dentições colocam ao longo da vida a todos os portugueses, praticamente sem exceção, desde a juventude. São enormes as necessidades de prevenção e tratamento das doenças da boca e dentes. Acrescem as perdas e necessidades em implantes e em próteses de diferentes tipos. Temos assim uma pálida ideia das enormes necessidades de prevenção e de tratamento das doenças da boca. Geralmente só pensamos na patologia dos dentes e tudo o que lhe está associado em necessidades especiais, mas há ainda toda a patologia da mucosa, o cancro oral, os problemas da fala, as nevralgias, as xerostomias, etc. Estamos perante uma área com enormes problemas de gestão quer na prevenção, quer no tratamento, apesar de a administração da saúde quase só assumir a prevenção e tratamento nos jovens (e anualmente só de parte dos jovens). Ainda assim já estamos a falar duma gestão que, direta ou indiretamente, envolve milhões de euros e centenas ou milhares de profissionais.

Pois com um quadro com estas responsabilidades nunca a Saúde Oral, como entidade com existência própria na Direção Geral da Saúde desde há cerca de 35 anos, esteve gerida por alguém da área (higienista oral, médico dentista ou médico estomatologista) com formação específica de nível pós-graduado e com experiência de trabalho no campo, sendo que já há hoje um número apreciável de membros daqueles grupos profissionais com mestrados e doutoramentos e experiência de campo que conferem as bases para assumirem funções de gestão da saúde oral com competência e independência.

Tal como para os cargos de grande responsabilidade técnica da administração central, que não são de escolha política, o Coordenador Nacional da Promoção da Saúde Oral (CNPSO) deve ser selecionado por uma entidade independente, como o CRESAP p. ex., para um período de tempo definido, em concurso público aberto na sequência de um caderno de encargos elaborado de forma competente. O CNPSO é um cargo com demasiadas responsabilidades para ser escolhido ao sabor dos interesses partidários ou corporativos do momento.

Durante 35 anos nunca os indispensáveis pré-requisitos de preparação na área da gestão em saúde oral foram preenchidos pelos gestores a quem foi entregue sucessivamente a administração da saúde oral. Foi-se sempre “buscar ali ao lado” alguém que teria certamente boa preparação noutras áreas, mas não em Saúde Oral (SO). Por isso falo em menoridade da SO, que se encontra assim ao sabor dos interesses corporativos ou políticos do momento e nunca um profissional da área devidamente preparado foi colocado na gestão da Saúde Oral.

Parece que há poucos meses terá sido nomeado uma profissional da área, de forma quase secreta, para o lugar de CNPSO. Que me perdoe as minhas observações se estiver a ser injusto, mas não se lhe conhece qualquer preparação nem competência para o lugar além do provável apoio e suporte da Secretaria de Estado Adjunta e da Saúde, do Diretor Geral da Saúde e da Ordem dos Médicos Dentistas, que não se tem pronunciado.

Como vê o estado atual da medicina dentária em Portugal?

No campo da saúde pública acho que existe, pelas razões acima expostas, uma situação má, de falta de coerência e independência nas medidas de prevenção. Mas no campo dos tratamentos dos jovens, a introdução do cheque dentista foi um primeiro passo muito importante para o seu tratamento. Mas coloco reservas a que as atenções estejam dirigidas em particular a alguns níveis etários e que a dentição decídua tenha estado, eventualmente ainda estará, fora do âmbito de uma observação de controlo anual que poderia ser feita com alguma celeridade e baixos custos nas próprias salas de aula. Se as condições que favoreceram o aparecimento da cárie na dentição decídua não forem corrigidas precocemente aquelas mesmas condições irão favorecer o aparecimento da cárie também na dentição permanente. Por outro lado penso que a aplicação do cheque dentista deve ser regularmente sujeita a uma avaliação por uma entidade independente e competente.

O que acha do excesso de profissionais nesta área?    

Poderá trazer alguns benefícios para a população, que poderá beneficiar de uma maior distribuição dos profissionais e maior controlo de custos em consequência da concorrência acrescida, mas poderá determinar sobretratamentos e determinará certamente dificuldades muito grandes e um esforço acrescido para os médicos dentistas recém-formados que querem iniciar a prática clínica.

Quais as suas lutas neste momento?   

Já referi a principal: bater-me por um concurso público, com júri independente, para a seleção do Coordenador Nacional do Programa de Promoção da Saúde Oral (e simultaneamente representante no conselho europeu de ‘Chief Dental Officers’. Depois a introdução da escovagem dos dentes no maior número possível de creches e jardins de infância públicos, especialmente nas zonas urbanas mais desfavorecidas e nas zonas rurais. Ainda a passagem, a curto prazo, da prevenção em saúde oral nos jovens para as autarquias, com um grande envolvimento dos higienistas orais.

O que falta à profissão?             

Estou muito afastado dos profissionais clínicos (que lutam no dia-a-dia pelos seus doentes e pela sua sobrevivência própria) pelo que não estou em condições de responder a esta questão. Mas ouço dizer que o encurtamento das licenciaturas, como consequência do processo de Bolonha, lhes retirou tempo de experiência clínica, que lhes faz muita falta.

Ainda tem sonhos por cumprir?             

Claro que tenho: que se concretize rapidamente o concurso público para a seleção, por um júri independente – saliento, por um júri independente – eventualmente o CRESAP, de um Coordenador Nacional para a Promoção da Saúde Oral, bem preparado, experiente, independente, dedicado à causa pública e suficientemente forte para resistir às pressões políticas e corporativas que contrariem o bem público e que reveja com coerência todos os programas de Saúde Oral nacionais. Mas verdadeiramente este é um sonho difícil de ver concretizado: não sinto que haja na tutela, que julgo ser a Secretaria de Estado Adjunta e da Saúde clarividência, competência e coragem para executar esta necessidade premente da nossa SO.